05/06/2026

Memórias dos anos 1970 de "O Pastor e o Guerrilheiro" dialogam com a realidade atual

Gramado -
Parcialmente baseado nas memórias do ex-militante da luta armada Glênio Sá, o drama O Pastor e o Guerrilheiro, de José Eduardo Belmonte, une dois tempos e duas pontas da realidade brasileira, entre o início dos anos 1970 e o final dos 1990, numa discussão que ressoa muito no presente - mérito do filme, que tem produção, direção e atuação empenhados.

O roteiro, assinado pela argentina Josefina Trotta, José Eduardo Belmonte e Nilson Rodrigues (também o produtor), avança adiante do livro de Sá - Relato de um Guerrilheiro - , introduzindo como fio condutor a personagem Juliana (Júlia Dalávia), uma jovem estudante universitária, filha de mãe solteira e falecida, que repentinamente tem notícias da morte do pai, que nunca conheceu e de quem receberá uma herança. Este era um coronel (Ricardo Gelli) que, como a filha descobrirá, foi um torturador durante a ditadura militar de 1964.

Uma complexidade da narrativa é lidar com estes dois tempos que se contrapõem, o de meados dos anos 1970, quando o jovem João (Johnny Massaro) deixa a Universidade de Brasília para juntar-se à guerrilha rural no Araguaia - o que Juliana acompanha por um livro encontrado na casa do pai morto - e o ano de 1999, presente de Juliana, iminência de um novo milênio que projetava planos de futuro.

No centro das memórias de João, Juliana descobre sua amizade, na prisão, com Zaqueu (César Mello) - um jovem evangélico preso por engano e que compartilha todo o calvário do guerrilheiro, barbaramente torturado e resistindo a entregar as informações de seu grupo. Alguns dos momentos mais bonitos do filme estão nesta conversa entre os dois prisioneiros, que têm uma fé diferente, um em Deus, outro na revolução, mas que humanamente se encontram e são capazes de empatia - nada mais urgente do que isto no Brasil de 2022.


O ator Johnny Massaro, ao centro, com microfone, na coletiva do filme "O pastor e o guerrilheiro"

Contribuições de Genoíno
Massaro contou, na coletiva do filme, que o ajudaram na composição do personagem suas conversas com José Genoíno, ex-guerrilheiro no Araguaia. Em conversa comigo, logo após a sessão do filme, que ele assistiu, Genoíno contou que estavam na tela situações que ele viveu - como o episódio de sede intensa que ele sentia, preso, na cela, depois de uma sessão de tortura, reproduzido no filme. Outro ex-militante da guerrilha que assistiu ao filme e ao debate foi o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que militou no MR-8.

No debate, Juca comentou que, mesmo tendo integrado a guerrilha urbana, não a rural retratada no filme, ele se identificou e o elogiou. “Vários filmes sobre os militantes da luta armada os caricaturizaram, como se eles tivessem sido pessoas que estavam ali, sem ter nada pra fazer e que pegaram em armas, assim, por nada”. Ele não viu este defeito em O Pastor e o Guerrilheiro e afirmou ainda que o filme “nos lembra de que deveríamos ter punido os torturadores”.

José Genoino, no debate do filme "O Pastor e o Guerilheiro"

Nilson Rodrigues completou: “Fizemos muito poucos filmes sobre a ditadura no Brasil”. Ele comentou que a própria história pessoal da militância de Juca Ferreira o interessa muito e ele está esperando um dia poder filmá-la.

Evangélicos
Chama a atenção no filme o espaço dedicado aos cultos evangélicos, conduzidos pelo Zaqueu pós-prisão, numa comunidade que ignora seu passado. O diretor Belmonte destacou ter se preocupado em retratar os evangélicos “de uma forma menos vertical, tentando ser fiel e respeitoso com as contradições que também existem entre eles”.
O produtor Nilson observou que, em 1999, ano da história, “o neopentecostalismo ocupava um espaço muito diferente”. Destacou que religiões nessa linha surgiram no Brasil em meados dos anos 1970 e hoje “têm um peso muito diferente, é um fenômeno cultural gigantesco”.

Juca Ferreira lembrou que Leonel Brizola costumava dizer que a chegada dos neopentecostais no Brasil obedecia a um plano do Departamento de Estado norte-americano e que, depois de se enraizarem na sociedade, eles entrariam na política - “ e aí o Brasil estaria perdido”, na opinião de Brizola.

Português genérico
No debate do concorrente internacional O último animal, de Leonel Vieira, uma coprodução Brasil/Portugal, o diretor contou que sua primeira atração para escrever a história foi um artigo sobre o jogo do bicho, um tema que, a seu ver, não tem recebido muita atenção, não existindo muita dramaturgia sobre isto no Brasil.

A história recebeu nada menos de 15 tratamentos, com a passagem de vários roteiristas, porque Vieira estava insatisfeito com os rumos até ali conseguidos. A versão final é assinada por dois jovens roteiristas brasileiros, Ernesto Solis e Leonardo Gudel, que traduzem um universo em que se misturam o jogo do bicho, o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, a corrupção policial e relações humanas complicadas, num filme falado em parte considerável em inglês.

Indagado sobre essa questão linguística no debate, Vieira afirmou procurar estar, com isso, “reconhecendo a presença de tantos estrangeiros no Brasil, assim como em outros países do mundo”. Na verdade, o que parece é que há uma intenção dos produtores de tentar vender o filme, um tanto genérico em sua mistura de gêneros, para o mercado internacional.

O diretor português Leonel Vieira (à direita), do filme "O último animal", com atores no debate do filme