A urgência da vida, no Acre e no México, bate nas telas de Gramado
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 15/08/2022
- Tempo de leitura 6 minutos
Gramado - A noite de domingo (14) em Gramado teve a tônica da urgência. No longa brasileiro Noites Alienígenas (foto ao lado), de Sérgio de Carvalho, um relato de uma juventude perdida nos confins da Amazônia, invadida pelo narcotráfico e assolada pela destruição ambiental e das culturas indígenas originais. No concorrente mexicano, El Camino de Sol, de Claudia Sainte-Luce, o doloroso calvário de uma mãe pobre (Anajosé Aldrete) na busca desesperada por seu filho sequestrado, de apenas 6 anos, numa situação de inércia institucional, em que a polícia e a justiça não se movem, a não ser mediante propinas, e ela se desdobra para obter o valor de um resgate impossível. Como, senão com a urgência, se poderia contar histórias tão extremas e desvairadas?
Acre em foco
Ostentando o pioneirismo admirável de ser o primeiro longa para cinema já realizado no Acre, Noites Alienígenas sintetiza o esforço imenso para realizar esta obra, que ainda colheu os últimos frutos da descentralização de políticas públicas promovidas pelo extinto Ministério da Cultura - cuja ausência, agora, apenas demonstra a imperiosa necessidade de sua reinstalação, para que cada canto do Brasil possa ter sua expressão artística.
O filme nasce de uma história do próprio Sérgio de Carvalho, um paulista formado em Cinema no Rio de Janeiro que se radicou no Acre há 20 anos e já tem uma carreira como documentarista (Empate) e diretor de séries de TV (Nokun Txai e O Olhar que vem de Dentro). Nestes últimos tempos, ele assistiu in loco a chegada das facções criminosas do tráfico do sudeste, seguindo o mesmo modus operandi que presenciara no Rio, com execuções às dezenas, especialmente entre os jovens sem estudo ou oportunidades que as integram.
Antes do filme, Carvalho escreveu o livro, que, como ele diz, “nasceu para ser filmado” e serviu de base a um primeiro tratamento do roteiro, que foi recebendo inúmeras modificações. Entre elas, o destino do personagem Paulo (Adanilo), jovem indígena que tem sua vida destroçada pela dependência química. No livro, Paulo é morto, mas Carvalho sentiu a absoluta necessidade de mudar seu destino no filme. “No Brasil de Bolsonaro, não dá para matar mais nenhum único índio, mesmo na ficção”.Equipe do filme "Noites Alienígenas", com a produtora Karla Martins à esquerda, o diretor Sérgio de Carvalho e o ator Chico Díaz à direita
Nome mais famoso do elenco, Chico Díaz interpreta Alê, um traficante independente, não membro das facções e que tem como empregado o jovem Riva (o rapper Gabriel knoxx), um desses rapazes perdidos na periferia de Rio Branco. Outra personagem marcante é Beatriz (Joana Gatis, que também é figurinista no cinema pernambucano), mãe de Riva, que interpreta uma das cenas mais tocantes do filme, ao lado de Díaz.
Chico Díaz contou que sua ligação com o Acre veio de alguns anos atrás, quando foi chamado a participar do festival Pachamama, que reúne filmes brasileiros e latino-americanos e é uma das mais marcantes iniciativas locais - este ano, infelizmente, não acontecendo por ter sido impossível arrecadar orçamento suficiente,conforme a produtora Karla Martins, produtora também do longa.
Deste contato, Díaz criou um vínculo de afeto com a região, onde ele enxergou “uma integração mais harmônica com a cultura indígena, diferente, por exemplo, da extrema violência no Mato Grosso do Sul”. Por isso, quando Karla o convidou para integrar o elenco do filme, ele aceitou imediatamente.
A fotografia de Pedro Kruger é outro elemento consistente na produção, que integra elementos do ritual do ayuasca e pontua o realismo de sequências violentas com a incidência eventual de um toque surreal - como a sugestão da passagem de um disco voador. Tudo isso cria uma obra que inquieta, sacode e permanece na pele do espectador por longo tempo depois que a projeção terminou.
Homens e cães
No drama mexicano El Camino de Sol, a diretora Claudia Sainte-Luce, também autora do roteiro, desdobra a saga trágica de Sol (a impressionante Anajosé Aldrete, candidatíssima a um prêmio de melhor atriz), mulher trabalhadora e separada que vê seu pequeno filho, de 6 anos, sequestrado por um carro, diante de seus olhos. Nos dias seguintes, ela e o pai do menino (Armando Hernández) percorrerão delegacias, tentando obter ajuda para recuperar o menino. Mas encontram diante de si uma parede de indiferença. Os policiais não se mexem para nenhuma investigação e sugerem querer propinas para isso.
Mais do que o pai do garoto, Sol está obcecada em fazer o que necessário for para recuperar o filho. Aí surge a ideia de juntar dinheiro mediante coleta de recompensas por cachorros perdidos, cujos cartazes, colados em postes, rivalizam com os seus, à procura do filho. Mais do que isso, Sol começa ela mesma a roubar cachorros, para poder juntar o dinheiro que supostos sequestradores lhe exigem pelo telefone, ameaçando matar ou mutilar seu filho.
Presentes em Gramado, a atriz e o produtor Ignácio Perales destacaram haver no México uma quantidade impressionante de pessoas desaparecidas, não só crianças como milhares de imigrantes, interceptados quando viajam em direção aos EUA. No entanto, como destacou a atriz, “há uma certa falta de sensibilidade com tantos desaparecimentos de pessoas. Parece que é mais fácil envolver-se na busca dos cães, o que é uma contradição terrível. E também há uma total falta de apoio do Estado”.Produtor Ignacio Perales e atriz Anajosé Aldrete, do filme mexicano "El camino de Sol"
O produtor afirmou que “em toda essa violência no México, o Estado tem sido ausente, ou cúmplice, por isso a violência atingiu índices tão altos, que não esperávamos”. Por isso, El Camino de Sol, por mais que descreva uma história ficcional e de uma única pessoa, é uma denúncia de um processo muito maior.
Anajosé Aldrete contou que está na carreira há 10 anos e este é seu primeiro papel como protagonista. No México, o filme já estreou nos cinemas, pouco antes da pandemia, por isso teve sua carreira nas telas um tanto truncada.
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