Mundo masculino é problematizado no brasileiro "O Clube dos Anjos" e no uruguaio 9
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 14/08/2022
- Tempo de leitura 5 minutos
Gramado - Se a primeira noite competitiva, na sexta (12), foi consagrada a filmes de temática feminina, com protagonistas mulheres em primeiro plano (A Mãe, La Pampa), a segunda noite voltou seu foco ao mundo masculino, tanto na competição nacional quanto na internacional.
Filme carioca, O Clube dos Anjos, do estreante em longas Angelo Defanti, adapta romance homônimo de Luis Fernando Verissimo, reconstruindo a história de um clube de amigos que se encontram mensalmente para comer. Eles se conhecem desde garotos de escola, quando sua iguaria máxima era um picadinho com arroz e farofa de ovo. Décadas depois, todos eles sendo parte de uma elite econômica que não precisa preocupar-se com os gastos, eles competem para oferecer uns aos outros banquetes regados a caros vinhos e champanhes.
Um dia, apresenta-se a um deles, Daniel (Otávio Muller), um estranho, Lucídio (Matheus Nachtergaele), que logo demonstra altos conhecimentos culinários e rapidamente se torna seu cozinheiro Mas, junto com ele, introduz-se uma ameaça: a cada encontro, um deles morre, desencadeando um jogo sinistro que, por alguma razão, eles não interrompem.
É uma trama interessante, que colhe inspirações, guardadas as devidas proporções, com filmes do passado juntando comida e morte: como A Comilança, de Marco Ferreri, ou O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, mas preservando o seu espaço próprio.
Uma peculiaridade altamente favorável é este elenco, verdadeiramente magistral, integrado por Augusto Madeira, César Mello, Ângelo Antônio, Marco Ricca, Paulo Miklos, André Abujamra (que assina também a trilha musical). Embora o protagonista seja Otávio Muller, a participação de cada um dos outros é essencial ao funcionamento desta orquestra sombria, num gênero de suspense que o cinema brasileiro não costuma frequentar muito e em que este diretor estreante se arrisca com considerável êxito. Não seria surpresa se o júri contemplasse o elenco masculino em conjunto.
E humor, para quem espera de uma história adaptada de Verissimo, quando há, é negríssimo. Exatamente como no livro.
Futebol uruguaio
Da mesma forma, o concorrente internacional da noite, a produção uruguaio-argentina 9, dos diretores Martin Barrenechea e Nicolas Branca, mergulha no universo masculino ao ficcionalizar a crise de um jovem jogador de futebol, Cristian (Enzo Vogrincic), num momento difícil na carreira. Ele acaba de protagonizar um incidente violento num jogo contra a Colômbia, às vésperas de uma pretendida mudança para um time da Inglaterra. Suspenso do futebol, ele agora corre o risco de não fechar o negócio de sua transferência.
O filme é construído de maneira bastante rigorosa - e eventualmente, distanciada e um pouco fria -, em cima de inúmeras ausências, que acabam revelando o que está verdadeiramente em questão na vida de Cristian. Não se vê um único jogo de futebol - ele está longe dos campos, devido à suspensão. Não há uma única mulher à vista durante boa parte do filme - ele é órfão de mãe desde pequeno, o que define algumas de suas dificuldades afetivas, tendo um pai (o ator argentino Rafael Spregelburd) que atua como seu empresário, decide tudo por ele e usufrui bastante da riqueza proporcionada pelo sucesso do filho.
As mulheres, como definiu o diretor Nicolas Branca na coletiva do filme, são “agentes de mudança” na vida de Cristian, que vive dentro de um mundo masculino tóxico. Primeiro, uma psicóloga, que identifica sua crise pessoal com a vida que leva, depois uma garota, Belén (a estreante Sofía Lara), que desperta seu desejo e o leva a descobrir possibilidades de uma liberdade de que ele tanto precisa, embora nada disso seja idealizado a ponto de conduzir no caminho de uma redenção mágica. Ao contrário, a pegada do filme é bem realista, com um final aberto, junto ao mar, que remete a vários filmes, inclusive a Os Incompreendidos, de François Truffaut.
De todo modo, é um filme sobre o universo do futebol, paixão tanto dos uruguaios quanto dos brasileiros, que se inspira na vida de tantos esportistas cujas vidas são conduzidas com mão de ferro por seus pais - os diretores lembraram na coletiva os casos de Neymar, Messi e também do tenista André Agassi, que inclusive escreveu uma autobiografia a respeito.
No elenco, chama a atenção a presença do ator uruguaio Horácio Camanduli, protagonista de Gigante, premiado em Berlim e em Gramado em 2009, como uma rara presença afetiva no cotidiano do jogador Cristian, despersonalizado, tratado como objeto pelo pai, empresário e até pelo preparador físico, como se ele fosse um animal a ser treinado exaustivamente, apenas para obter resultados em campo. Os diretores lembraram, em comparação, os circos romanos, em que gladiadores em tempos antigos eram explorados ao máximo, no limite do esgotamento e da morte.
Estreante quando fez o filme, o ator Enzo Vogrincic está no elenco do filme espanhol La Sociedad de la Nieve, futuro lançamento na Netflix e que se inspira nos trágicos acontecimentos de um acidente de avião de 1972 em que os passageiros, atletas uruguaios, permaneceram perdidos nos Andes por cerca de 70 dias e cujos sobreviventes tiveram que recorrer à antropofagia para sobreviver.


O ator Enzo Vogrincic e os diretores Martin Barrenechea e Nicola Branca, do filme uruguaio "9", e a equipe do filme "O clube dos anjos". Com o microfone, o ator Augusto Madeira
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