Gramado começa 50ª edição com dramas fortes
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 13/08/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Gramado - A 50a. edição do festival abriu nesta sexta (12) com uma homenagem - à veterana atriz Araci Esteves, a intérprete magnética de Anahy de las Misiones, de Sérgio Sillva - e dois dramas fortes, o paulista A Mãe (foto ao lado), de Cristiano Burlan, e o peruano La Pampa, de Dorian Fernández Moris.
Gaúcho radicado há muito em São Paulo, Burlan tem pautado sua cinematografia por documentários pessoais, familiares, em torno de tragédias de sua vida - caso dos premiados Mataram meu irmão e Elegia de um Crime, parte de sua chamada Trilogia do Luto, em que se aproxima dos assassinatos de seu irmão (em 2001) e de sua mãe (em 2017). Exibido anteriormente na competição do Festival de Málaga, A Mãe, protagonizado por uma sempre esplêndida Marcélia Cartaxo, ficcionaliza uma saga que Burlan conhece muito bem - a luta de uma mãe trabalhadora e pobre, na periferia leste de São Paulo, buscado saber o que aconteceu com seu filho adolescente, Valdo (Dunstin Farias), que desapareceu.
A questão não é tanto saber o destino com o rapaz - o que se intui desde o começo e o filme esclarece no final - mas sim clarificar esse processo angustiante de mães à procura dos filhos desaparecidos, uma tragédia brasileira que vem desde a ditadura militar 1964-1985, evocada, aliás, por uma brilhante sequência com a participação da sempre mítica Helena Ignez.
Fazer essa ponte com o passado recente e também com um presente insistentemente trágico - com a referência às Mães de Maio, grupo contra a violência de Estado atuante em S. Paulo - é a grande qualidade do filme, que conta com participações femininas da maior grandeza. É o caso não só de Marcélia e Helena, mas também de Débora Silva (integrante das Mães de Maio que foi premiada em Málaga como coadjuvante), Tuna Dwek, Mawusi Tulani e Anna Carolina Marinho.
Amazônia trágica
O concorrente peruano La Pampa, por sua vez, vibrou numa toada bem mais melodramática para desenvolver a história de Juan (Fernando Bacilio), um homem que mudou de identidade e vive escondido, e é procurado por uma adolescente, Reina (Luz Pinedo), que acredita que ele é seu pai. Na verdade, ele assumiu o nome do pai morto dela mas, mesmo assim, ele se torna uma espécie de justiceiro e pai substituto, procurando protegê-la de uma rede de exploração de prostituição na região amazônica de La Pampa.
Baseado em fatos reais, o filme tem a força da denúncia e conta com interpretações dedicadas de todo o seu elenco. Mas, embarcando numa mistura de gêneros nem sempre bem-sucedida, que na segunda metade se torna próxima de um filme policial/de ação, acaba assumindo um certo tom de novelão que desequilibra um pouco a mensagem que ele carrega. Certamente, foi intencional da parte do jovem diretor Fernández Moris, mas um pouco mais de contenção daria uma contundência mais enxuta.
Marcos Palmeira
Hoje (13) o festival prossegue, com outra homenagem, desta vez para o ator Marcos Palmeira, que tem feito sucesso nas ruas pelos muitos fãs de seu personagem Leôncio, de Pantanal.
Os longas em competição, exibidos no Palácio dos Festivais a partir das 18h,
são O Clube dos Anjos, de Angelo Defanti (BR) - baseado em livro homônimo de Luiz Fernando Verissimo - , e o uruguaio 9, de Martín Barrenechea e Nicolás Branca.


Da esquerda para a direita: equipe do filme "A Mãe" e com faixa do movimento Mães de Maio e o diretor peruano Dorian Fernández com a atriz Luz Pinedo, do filme "La Pampa".
Fotos: Neusa Barbosa
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