Veneza começa com "Black Swan" e o sangrento "Machete"
- Por Neusa Barbosa
- 01/09/2010
- Tempo de leitura 6 minutos
Com Black Swan, um drama psicológico ambientado no mundo do balé que mostra grande afinidade com obras anteriores do diretor Darren Aronofsky, como Pi e Réquiem para um Sonho, foi dada hoje (1) a partida na competição no 67º Festival de Veneza.
O filme, que terá sua sessão de gala logo mais, foi mostrado nesta manhã em sessões de imprensa bem concorridas, além de merecer uma entrevista coletiva completamente lotada. Na coletiva, a atriz Natalie Portman, intérprete da atormentada protagonista Nina, esquivou-se das perguntas mais polêmicas, como sua preparação para cenas mais sensuais,como aquela em que beija a colega Mila Kunis na boca. Natalie disse que a primeira vez que o diretor mencionou que ela teria uma cena de sexo consigo mesma” (o que acontece nos delírios da protagonista), ela achou “interessante e desafiador”. Esta primeira conversa sobre o projeto do filme ocorreu oito anos atrás, em 2002.
De maneira descontraída, o próprio Aronofsky desmentiu-a sobre esta primeira reação. “O que ela me disse de pronto foi: ‘por quê esta cena?’. E eu respondi: ‘ainda vou pensar porquê’.”
Nem por isto alguém deve imaginar que Black Swan se trata de um filme lésbico. A trama ambienta-se numa companhia de balé, onde uma nova montagem do clássico O Lago dos Cisnes cria uma acirrada competição pelo papel principal – já que a primeira bailarina da companhia, Beth (Winona Ryder, saindo do ostracismo), está sendo aposentada. O posto cabe a Nina (Natalie), mas ela tem sérios problemas interiores, começando por uma relação doentia com a mãe (Barbara Hershey). Pressionada pelo exigente diretor artístico (Vincent Cassel), Nina enxerga concorrência desleal da parte das outras colegas, o que a leva a apresentar comportamento cada vez mais descontrolado.
Ainda na coletiva, Aronofsky destacou ver semelhanças entre este novo filme – que ainda não tem título brasileiro nem data de estreia fechada no Brasil – e O Lutador, drama ambientado no mundo da luta livre, estrelado por Mickey Rourke e que venceu o Leão de Ouro em Veneza, em 2008. “Embora cada história tenha seu próprio estilo e causa, em ambos eu uso os corpos dos atores de forma muito física”, analisou o diretor.
Além de Black Swan, a sessão de gala desta noite terá um segundo filme de abertura – mas este último fora de competição -, The Legend of the Fist: The
Return f Chen Zhen, de Andrew Law. E, inaugurando as sessões da meia-noite, também sem concorrer ao Leão de Ouro, será exibida a aventura Machete, de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis.
Return f Chen Zhen, de Andrew Law. E, inaugurando as sessões da meia-noite, também sem concorrer ao Leão de Ouro, será exibida a aventura Machete, de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis.
Um heroi mexicano
Machete, o novo, sangrento e, porque não dizer, divertido filme do diretor texano Robert Rodriguez (Sin City), evoluiu de um trailer de À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino, mas originalmente era uma ideia que Rodriguez havia imaginado há 16 anos atrás, antes mesmo de fazer El Mariachi (92) - o marco inicial de sua carreira, como suposto filme de menor orçamento até então feito, anunciados US$ 7.000,00.
Quando precisou fazer o trailer, há três anos, o diretor lembrou-se do personagem Machete, um mexicano, ex-policial, que enfrenta na ponta de seu ‘machete’ (uma enorme lâmina, semelhante a uma peixeira) traficantes de drogas, políticos e agentes federais corruptos. No final, o projeto saiu bem diferente: “Tive que fazer o filme baseado no trailer, que teve uma resposta muito grande, e não na minha ideia original”, disse Rodriguez, em entrevista a um pequeno grupo de jornalistas nesta manhã, em Veneza, da qual participou o Cineweb.
Interpretado pelo veterano Danny Trejo (Con Air – A Rota da Fuga), Machete é, na visão do diretor, um herói universal. “Me perguntam porque ele tinha que ser latino, que ser mexicano. Para mim, quanto mais específico, mais universal. James Bond é britânico e todo mundo aceita. Eu mesmo sempre me identifiquei com a Austrália que há por trás de Mad Max”, afirmou.
Rindo, ele contou que o colega mexicano Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) costuma dizer que Rodriguez cria em seus filmes “um México que não existe”, o que ele reconhece ser totalmente verdadeiro. “Eu uso o México como um elemento de fantasia. Gosto de ver o mundo através desse estado de sonho que dura enquanto o filme está sendo exibido”, define.
Ainda que a grande intenção de Machete – que estreia nesta sexta (3) nos EUA e em 15 de outubro no Brasil – seja divertir, há todo um pano de fundo discutindo a exploração e perseguição de imigrantes mexicanos ilegais. Entre os principais personagens, há um senador (interpretado por Robert De Niro) que tenta se reeleger com uma plataforma de expulsão e perseguição a estes imigrantes; e um policial da fronteira (Don Johnson, da série Miami Vice) que os persegue e mesmo mata, inclusive uma mulher grávida, o que repetiu, inclusive, um incidente real ocorrido nos EUA.
Rodriguez garante que se trata de “mera coincidência”. Para ele, seu filme “não é sobre imigração”. O diretor garante que todos esses problemas já existiam há 16 anos, quando pensou pela primeira vez na história. Por isso, não gostaria também de ver Machete transformado num manifesto político. Para ele, “tudo isso torna meu filme mais relevante e, espero, mais excitante de assistir”. Entretanto, reconhece que há estados nos EUA, como o Arizona, que estão “tentando as soluções erradas” na questão da imigração”. E arremata: “Em algum momento, o governo vai ter que fazer algo a respeito”.
Rodriguez comenta que é parte de seu estilo de trabalho reciclar ideias antigas. Ele costuma guardá-las em arquivos de computador e informa manter diversos backups, por garantia. Também não é, como alguns podem imaginar, fissurado em tecnologia: “A arte está no que ela é, em contar uma história. Para mim, não é relevante usar ou não uma câmera digital”.
O cineasta contou também que pretende trabalhar novamente com o ator espanhol Antonio Banderas, o protagonista de A Balada do Pistoleiro (95), sequência de El Mariachi. E diz que “escreveu um papel” especialmente para ele em seu próximo filme, Pequenos Espiões 4, sobre o qual ele não quer falar muito a respeito.
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