Júri em Veneza surpreende e premia documentário “All the Beauty and the Bloodshed”
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 10/09/2022
- Tempo de leitura 5 minutos
Veneza - No final, o júri presidido pela atriz norte-americana Julianne Moore surpreendeu todo mundo, entregando o Leão de Ouro ao documentário norte-americano All the Beauty and the Bloodshed, de Laura Poitras (foto ao lado), um sensível retrato da fotógrafa e ativista Nan Goldin. A última vez que um documentário venceu neste festival foi em 2013, quando o Leão foi dado ao italiano Sacro Gra, de Gianfranco Rosi.
Premiada documentarista, a francesa Alice Diop recebeu dois troféus, com o Leão de Prata de Grande Prêmio do Júri e também o Leão do Futuro (um prêmio dado a primeiros filmes, no caso, por se tratar de sua primeira ficção) por seu Saint Omer, um mergulho nas fraturas da identidade das mulheres imigrantes de origem africana na França, a partir do julgamento de uma mãe acusada de matar o próprio filho, ecoando a tragédia grega de Medéia.
Outra dupla premiação foi conferida ao inglês The Banshees of Inisherin, de Martin McDonagh, que levou melhor roteiro (do próprio McDonagh) e melhor ator para Colin Farrell - surpreendendo aqueles que já davam como certa a vitória de Brendan Fraser, por The Whale, filme de Darren Aronofsky que, aliás, não levou nenhum prêmio.
Também foi esquecido pelo júri ótimo drama Argentina, 1985, de Santiago Mitre, que foi distinguido com o prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos). O elogiado Bardo, o Crónica de unas Cuantas Verdades, de Alejandro González Iñárritu, e White Noise, de Noah Baumbach, também passaram ao largo da premiação.
Era de se esperar que o iraniano Jafar Panahi, preso no Irã e lutando há anos para continuar filmando, levasse um prêmio importante para o seu belo Khers Nist (No Bears), conquistando o Especial do Júri por essa obra que encerra um filme dentro de um filme e enfoca com contundência a situação repressiva de seu país.
Único italiano premiado na noite, ainda que por uma produção norte-americana, Luca Guadagnino levou o outro Leão de Prata, de melhor direção, pelo irregular drama de amor canibal Bones And All, que garantiu ainda o Prêmio Marcello Mastroianni, destinado a intérpretes-revelação, à atriz Taylor Russell.
Nenhuma surpresa para a premiação, com a Coppa Volpi de melhor atriz, para a australiana Cate Blanchett pelo drama Tár, de Todd Field. Desde a exibição do filme, no começo do festival, ela era a franca favorita. E mereceu, porque a composição que ela faz desta maestrina poderosa e caída em desgraça é realmente magistral.
Brasileiro na paralela
Num festival que incluiu pouquíssimos títulos latino-americanos, um brasileiro, o gaúcho Pedro Harres, que vive na Alemanha (foto ao lado), recebeu o Grande Prêmio do Júri por From the Main Square na mostra Venice Immersive, dedicada às experiências em Realidade Virtual. Harres fez um discurso político ao receber seu prêmio, protestando contra o “governo contra a democracia do País”.
Crédito da imagem: Reuters
O jornal La Republica deu destaque a sua manifestação, portando um cartaz defendendo a luta contra o extremismo de direita:
"No Brasil, não apenas o cinema está em perigo, mas a democracia. Nós devemos gritar o mais forte poissível contra esse perigo. Juntos gritemos: somos todos antifascistas."
"No Brasil, não apenas o cinema está em perigo, mas a democracia. Nós devemos gritar o mais forte poissível contra esse perigo. Juntos gritemos: somos todos antifascistas."
Cineasta há cerca de 10 anos, Harres foi premiado em 2014 no Fantaspoa pela animação Castillo y El Armado. Sobre o filme premiado em Veneza, o diretor comentou que ainda girará festivais, como Ottawa, no Canadá, e que o produzirá em formato videogame, aproveitando o espaço nas plataformas do gênero.
Abaixo, as premiações principais:
Leão de Ouro: All the Beauty and the Bloodshed, de Laura Poitras (EUA)
Leão de Prata (Grande Prêmio do Júri): Saint Omer, de Alice Diop (França)
Leão de Prata (melhor direção): Luca Guadagnino (Bones and All)
Prêmio especial do Júri: Khers Nist (No Bears), de Jafar Panahi
Coppa Volpi - melhor ator: Colin Farrell (The Banshees of Inisherin)
Coppa Volpi - melhor atriz: Cate Blanchett (Tár)
Melhor roteiro: Martin McDonagh, por The Banshees of Inisherin
Prêmio Marcello Mastroianni (atriz revelação): Taylor Russell (Bones and All)
Leão do Futuro (opera prima): Saint Omer, de Alice Diop (França)
Mostra Orizzonti
melhor curta: Snow in September, de Lkhagvadulam Purev-Ochir (França, Mongólia)
melhor roteiro: Fernando Guzzoni, por Blanquita (Chile)
ator: Mohsen Tanabandeh, por World War III (Irã)
atriz: Vera Gemma, por Vera (Áustria)
Prêmio especial do júri: Chlébi i Sól, de Damian Kocur (Polônia)
Melhor diretor: Tizza Covi e Rainer Frimmel (Vera)
Melhor filme: World War III, de Houman Seyedi (Irã)
Orizzonti extra
melhor filme para o público: Nezouh, de Soudade Kaadan
Venice Immersive
Grande Prêmio do Júri: From the Main Square, de Pedro Harres (Alemanha)
Melhor experiência: The man who couldn’t leave, de Chen Singing (Taipei)
Prêmio do júri: Eggscape, de German Heller (Argentina)
Venice Classici
Melhor restauro: Koroshi no Rakuin, de Suzuki Seijun (Japão)
Melhor documentário sobre cinema: Fragments of Paradise, de KD Davison (EUA)
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