23/09/2026

Impasses pós-pandemia e perigos na Amazônia na tela de Brasília


Brasília - A ficção voltou à tela do Cine Brasília nesta sexta (18) com a exibição do longa mineiro Canção ao Longe, primeira direção solo da realizadora e montadora Clarissa Campolina.

Mantendo um estilo intimista que demonstrou em suas obras anteriores, Girimunho (codireção de Helvécio Marins) e Enquanto Estamos Aqui (codireção de Luiz Pretti), a diretora desenvolve a história de Jimena (Mônica Maria), uma jovem mulher que mora com a mãe e a avó e mantém um relacionamento à distância com o pai peruano. Ela é mestiça e essa condição racial a manteve a vida toda como alvo de bullying no meio de classe média em que habita e ela vive agora um momento de acúmulo emocional e necessidade de uma guinada.
Todo este processo é mostrado menos por diálogos e mais através de situações e imagens, traço fiel ao estilo de Clarissa Campolina, compondo um filme movido por sutilezas e câmera (de Ivo Lopes Araújo) acompanhando esses corpo em movimento de sua protagonista e dos que a cercam.


No debate do filme, a diretora contou que a ideia inicial do roteiro - cuja autoria ela divide com Caetano Gotardo e Sara Pinheiro - nasceu a partir do conhecimento de uma amiga que mantinha, desde os 7 anos, um relacionamento à distância com o pai através de cartas, ao lado da recusa de adotar meios eletrônicos modernos como o Skype e o Whatsapp.

Depois que engravidou, a diretora conta que começou a pensar também nos modelos de família, o que se tornou outro disparador de ideias no roteiro e fazem parte dos conflitos de Jimena, às voltas com um desejo de emancipação do núcleo familiar, ainda que dali provenham proteção e afeto, e de uma busca de estar no mundo com outras pessoas, como o músico Emílio (Ricardo Campos).

Ao lado do único outro concorrente de ficção puro-sangue (Espumas ao Vento, de Taciano Valério), Canção ao Longe exprime uma outra face de um gênero talvez em crise, em busca também de outros modelos de representar ficcionalmente nas telas as histórias que se pretende contar. E o faz com bastante delicadeza e um empenho de levar o espectador pela mão para decifrar seus movimentos, sem o que nenhuma empatia ou compartilhamento se completam.


Perigos na Amazônia
Exibido numa mostra especial como parte da homenagem ao cineasta paulista Jorge Bodanzky – que completa 80 anos no próximo mês -, seu mais recente filme, o documentário Amazônia, a nova Minamata?, assombrou pela potência de sua denúncia: a contaminação, decorrente do uso de mercúrio nos garimpos do Pará, do povo indígena Munduruku, começando já a reproduzir o fenômeno que ocorreu em Minamata, no Japão, nos anos 1950, quando a fábrica Chisso valeu-se do metal, provocando a gravíssima doença que hoje leva o nome da cidade.

Embaixo da reserva Munduruku, há uma enorme reserva de ouro, o que tem causado a invasão de suas terras e a multiplicação de garimpos ilegais, que contaminam os rios da região com o uso de mercúrio. Esse mercúrio se deposita não só na água, como nos peixes que fornecem a base da população local, inclusive de cidades próximas, como Santarém, acendendo o sinal de alerta para o imenso perigo que se verifica na ausência de controles – especialmente durante um governo que estimulou a proliferação dos garimpos e coibiu iniciativas de proteção ambiental e aos indígenas.

Infelizmente, os efeitos desta contaminação já começam a ser observados por médicos como o neurologista Erik Jennings, que há anos atua na área de saúde indígena e colheu amostras de sangue da população Munduruku, demonstrando a urgência de uma intervenção na região.

Curtas
Uma proposta desafiadora para o público habitou o curta pernambucano Capuchinhos, em que o realizador estreante Victor Laet recorre ao efeito glitch para desmontar frequentemente as imagens de sua narrativa, que retrata o relacionamento difícil entre uma mãe e uma filha e outras situações.

Esse desconcertante efeito visual de desconstrução da imagem gera a impressão de um defeito de exibição, o que o diretor contou que ocorreu quando mostrou o curta em festivais no exterior. “O pessoal pensa que é um defeito no DCP, mas é uma provocação mesmo”, afirmou Laet no debate. Ele comenta ser de uma geração “que foi cobaia dessa estética que vem da internet” e que os glitchs, no seu entender, tentam acentuar a direção de arte (assinada por Joana Claude), assim de assinalar os curto-circuitos na própria relação entre suas protagonistas.

Laet conta que a ideia do filme veio de um sonho que teve com algumas mulheres, mas não se lembrava do que diziam.. Escreveu o roteiro depois mas foram suas atrizes, Andréa Rosa, Una Martins e Mauricéa Conceição, que foram encontrando o humor que se vê na tela, assim como a montadora Ivich.

O outro curta foi o paraibano Nem o Mar Tem Tanta Água, de Mayara Valentim, resultado do trabalho de cinco roteiristas e filmado durante a pandemia. Os roteiristas - além de Mayara, Guilherme Daganello, Maurício Garcia, Letícia Albuquerque e Marcelo Quixaba (diretor de fotografia) - moraram juntos nesse período de isolamento em Cabedelo (PB), desenvolvendo o roteiro e outras atividades ligadas a ativismo agroecológico, que é parte da trama do filme.

Mas o enredo também inclui rupturas e liberdade emocional a partir das escolhas de Babi (Laís de Oyá), que decide experimentar um relacionamento com outra mulher (Raana Rocha) que não integra o trisal do qual a primeira faz parte.

Fotos do filme "Canção ao Longe":
Leticia Marotta/Divulgação