Política e diversidade sexual dominam a quarta noite competitiva em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 18/11/2022
- Tempo de leitura 4 minutos

Brasília - A realidade social do Brasil continuou reverberando na tela do Cine Brasília na quarta noite competitiva do festival. Desta vez, como num túnel do tempo, no documentário Mandado, dos diretores Brenda Melo e João Paulo Reys (RJ), que examina fatos cruciais para o entendimento da crise política que o País ainda atravessa localizados nos últimos seis anos.
O gatilho para o filme é a decisão de um juiz do Rio, de 2016, permitindo à polícia livre acesso às casas de todos os moradores de um trecho da comunidade da Maré, em nome do combate ao tráfico, o que multiplica o desrespeito aos direitos humanos individuais de cada um deles.Uma decisão escudada na justiça, ainda que desrespeitando todas as normas estabelecidas do direito - como atestam diversos juristas entrevistados no filme.

Mergulhando em diversas imagens de arquivo - cuja negociação de direitos atrasou a conclusão do filme -, Mandado traz também entrevistas, como a da futura vereadora Marielle Franco, na época já uma ativista nas comunidades cariocas, delineando com muita lucidez a violência da medida judicial, francamente discriminatória social e racialmente - afinal, uma providência do mesmo teor jamais seria admitida numa área de classe média ou alta da cidade.
A sensação de túnel do tempo percorre os espectadores já que se vêem na tela imagens de um passado da própria comunidade da Maré, mostrando como foi construída, além de personagens incontornáveis para refletir sobre a atual crise não só do Rio como do Brasil - caso dos ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, além do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira no Haiti, além de eventos relacionados às Olimpíadas no Rio, relacionando elementos da formação de uma cultura autoritária de intervenção jurídica e social.
O documentário funciona muito como estimulador da memória de vários erros mais ou menos recentes e chega em boa hora num momento em que o Brasil se prepara para um processo de reinvenção de si mesmo em que não pode dar-se ao luxo do esquecimento, muito menos de incorrer nos mesmos enganos.
Curtas

São Marino, de Leide Jacob (SP), abordou a diversidade sexual através do resgate da figura de Marino, um monge libanês do século VI que foi canonizado depois da morte como Santa Marina, quando se descobriu que, na verdade, ele havia nascido mulher e tivera toda uma vida com identidade masculina no mosteiro, onde foi viver com seu pai.
No Brasil do século XXI, o curta esteve no centro de um escândalo, já que o padre Júlio Lancellotti, além de estimulador do projeto, participa como narrador, levando setores reacionários da igreja a pedirem sua excomunhão. “O padre é nossa âncora, nossa estrela, foi fundamental para o projeto. Ele esteve conosco desde o começo”, definiu a diretora, no debate do filme. A polêmica com a Igreja Católica decorre do fato de que “não reconhece a vivência transmasculine de Marino, acha que ele era uma mulher disfarçada”, completa.
O ator Daniel Veiga, um dos personagens trans que aparecem no filme, destaca que o padre inclusive coleta dados sobre a vivência trans entre os moradores de rua, que são o objeto de sua atuação permanente na zona leste da capital paulista.
O outro curta da noite foi o criativo Escasso, de Clara Anastácia e Gabriela Gaia (RJ), que, em tom de mockumentary, focaliza a experiência inusitada de Rose (Clara Anastácia), uma passeadora de pets que ocupou uma casa de classe média cuja dona, aparentemente, desapareceu. O filme é um primor de diálogos irônicos desta personagem única, engraçada, lúcida e provocadora, que o tempo todo coloca em questão o jogo do poder entre quem filma e é filmado, colocando ao centro a questão de como os corpos periféricos são retratados e entendidos.
No debate, Clara Anastácia explica que a intenção do filme é uma “busca de descolonização do cinema”. “A gente não dá conta dos corpos periféricos, nem aprofunda a estética e a cultura, só engessa a imagem dessas comunidades e não cria uma intimidade com elas”. Para ela, Rose, que foi criada para o filme, “é uma soma de mulheres que a gente conhece, que sonham um dia serem a mocinha da TV”. Clara, que é negra, chamou a amiga Gabriela, que é branca, para dirigir, porque queria incluir no filme “o distanciamento, o lugar do incômodo, da culpa branca”.
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