21/07/2026
Drama

Passion

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Um dos mais felizes diálogos entre cinema, pintura, música e teatro, este trabalho de Jean-Luc Godard constrói parte de seu cenário em forma de "tableaux vivants" (quadros vivos) que evocam Goya, Delacroix, Rembrandt, Ingres, Watteau e El Greco, como num teatro filmado, num filme dentro do filme em que a vida dos atores mistura-se com tudo aquilo que encenam. O que está em questão é o que fica dentro e fora do quadro, na arte e na vida.

A discussão em torno da luz é outra das vertentes da história. A todo momento, o filme dentro do filme conduzido pelo diretor polonês Jerzy (Jerzy Radziwilowicz) é interrompido por conta dessa impossibilidade de encontrar a luz adequada. O parentesco com a realidade é puxado a partir da coincidência dos nomes dos atores e dos seus personagens - a operária Isabelle (Isabelle Huppert), a dona de hotel Hanna (Hanna Schygulla), seu marido Michel (Michel Piccoli), o diretor Jerzy. Todos eles não conseguem separar o trabalho do amor, o amor do trabalho, construindo mais uma dualidade em cima da qual trabalha Godard: afinal, o amor é um trabalho, o trabalho é um amor? Diante das indecisões sobre sua história, Jerzy retruca certeiro: "É preciso viver muito as histórias antes de inventá-las".

Godard trabalha todo o tempo sobre essa gramática da interrupção de cada um dos eixos dramáticos que iniciou, provocando uma fragmentação permanente da história, que define mesmo o seu modo de trabalhar. Godard constrói desconstruindo. É como se dissesse que não há síntese possível diante de tanta confusão, tanto acúmulo de informações que marca o nosso tempo.

Uma referência talvez datada, mas facilmente adaptável a novas circunstâncias, é à Polônia. Naquele princípio de 1980, o país do leste europeu personificava a utopia política do momento pela ação do sindicato independente Solidariedade quebrando o poderio monolítico do regime comunista de então. Esquerdista a vida inteira, Godard não se furta a colocar uma referência ao assunto, embora da maneira mais cética possível. Numa certa altura do filme, todos os personagens, proletários ou burgueses, querem ir para a Polônia. Uma jovem insiste em ir a pé, evoluindo em piruetas de balé clássico à margem da estrada. Ela insiste que não entra em automóveis. Mas quando Jerzy lhe oferece carona, dizendo que não se trata de um carro, e sim de um "tapete voador", ela deixa de acreditar na evidência em contrário de seus próprios olhos e dispõe-se a entrar no veículo. A utopia, parece dizer Godard, vive sempre lado a lado com uma certa cegueira que, na melhor das hipóteses, é temporária.

Correndo em paralelo, a bela trilha sonora evoca compositores do mesmo nível dos pintores lembrados nas referências iconográficas: Mozart, Ravel, Dvorák, Fauré, Beethoven. O mundo pode ser confuso e dilacerado, mas ao menos não se podem negar as evidências da beleza.

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