Filme de época com a assinatura de Eric Rohmer, que já virou uma espécie de garantia de sofisticação narrativa mesmo para os espectadores brasileiros, que conhecem tão pouco de sua obra, por conta das incertezas da distribuição no Brasil. É uma obra bem diversa de tudo o que já chegou aqui, mesmo seu outro trabalho de época, A Duquesa e o Duque (2001). A história parte de um livro de Heinrich Von Kleist e mergulha nas rígidas convenções do final do século XVIII para armar um conflito moral e romântico, bem ao gosto do nostálgico e aristocrata Rohmer.Na Lombardia, em 1799, trava-se uma guerra entre italianos e russos. No meio da batalha, alguns soldados russos tentam violentar a marquesa d'O (Edith Clever), a filha do comandante local (Peter Luhr). Salva a mulher a intervenção decidida do conde e comandante do regimento russo (Bruno Ganz, em seu primeiro papel de protagonista no cinema). Os locais se rendem aos vencedores e são respeitadas todas as normas cabíveis. O conde parte sem que a marquesa tenha tempo de agradecê-lo.Tempos depois, a família da marquesa - que é viúva e tem dois filhos pequenos - recebe a notícia de que o conde morreu, o que os deixa consternados. Inesperadamente, em breve o conde reaparece. Não é a única surpresa: o oficial traz no bolso um pedido de casamento para a marquesa, no qual coloca uma obstinação que não condiz com seu caráter aparentemente contido. Dispõe-se mesmo a abandonar pelo meio uma missão de que fora encarregado para realizar o matrimônio o quanto antes.Tanto ardor confunde o espírito da família da marquesa. Ela mesma havia jurado nunca mais se casar. Portanto, não há como fugir ao pedido de mais tempo de reflexão. O conde finalmente se conforma e prossegue sua viagem de trabalho, com a promessa de voltar o quanto antes. Nesse meio tempo, acontece algo ainda mais inesperado: a marquesa se descobre grávida e não tem a menor idéia de como isso pode ter acontecido.A gravidez, como seria de se esperar, desorganiza completamente a família. O pai expulsa a filha de casa e ela vai morar nas terras deixadas pelo marido, no interior. Quando o conde volta, este é o panorama que se descortina para ele. Sua reação, mais uma vez, não é a que seria mais lógica de esperar.A sintonia fina com a complicada estrutura das relações sociais é com certeza um prato cheio para um cineasta tão adepto da sutileza. E ele se deleita na pintura destes detalhes que conseguem evocar cristalinamente o espírito da época, com todas as nuances. O grande desafio é manter a história nos trilhos sem cair na tentação de modernizá-la, atenuando os aspectos mais indigestos às platéias modernas, acostumadas com mais ação e rapidez, coisa que Rohmer não faz. O risco maior é transmitir a palpitação da vida, dos conflitos, do romance, nas entrelinhas de tantos salamaleques e formalidades, que estavam na essência mesma da vida da aristocracia do século XVIII. Rohmer realizou este filme depois de concluir seus seis Contos Morais (dos quais chegou aqui recentemente A Colecionadora, de 1967). E só voltaria a fazer um filme de época em 2001, com A Inglesa e o Duque, em que, com certeza, partiu de um material mais vibrante, a visão da Revolução Francesa pelo relato de uma testemunha ocular. Em A Marquesa d'O, o diretor tira o melhor proveito do material à disposição, mas ele não consegue ultrapassar suas limitações. Além do mais, está filmando em língua estrangeira (todos os atores estão dublados) e isto subtrai um bocado a espontaneidade.
