Numa época de blockbusters repletos de cenas contendo violência e explosões, é um verdadeiro presente poder assistir a um filme tão meditativo, tranqüilo e repleto de imagens de extrema beleza. Não é à toa que Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera surpreendeu a todos que conheciam o cinema do diretor sul-coreano Kim ki-duk, ganhador do Urso de Prata em Berlim 2004 por Samaria. Afinal, seus filmes anteriores são completamente diferentes desta produção.
Nada mais do que uma fábula budista, o longa abrange o período de 30 a 40 anos na vida de um homem. Cada estação do ano mencionada no título é um segmento da educação espiritual e sentimental do protagonista. Toda a história se passa em um único cenário, um monastério flutuante em um lago isolado e seus arredores. A cada novo período, um desafio que o personagem enfrenta rumo à iluminação espiritual.
Enquanto nas duas primeiras estações, primavera e verão, o pequeno monge é um personagem mais passivo, que está aprendendo lições importantes sobre a vida e seguindo a sabedoria de seu mestre, é no outono que o filme ganha mais ritmo. Nessa parte, o protagonista é um jovem adulto com sérios problemas emocionais. Ao chegar no último estágio, o inverno, ele busca um equilíbrio entre as forças que o governam. O epílogo serve para comprovar que a vida segue em ciclos e que nem tudo é um fim, mas um novo começo.
Dividindo cada episódio entre 20 e 30 minutos, o diretor - que, aliás, interpreta o jovem monge nas duas últimas estações - conseguiu encontrar um equilíbrio em sua narrativa, que por natureza seria lenta. Apesar de seqüenciais, mas com visual e temáticas distintas, os quatro segmentos são como curta-metragens sobre a formação desse menino.
A maior qualidade do filme é contar uma história totalmente calcada em idéias abstratas e os conflitos dessas concepções - como sagrado e profano, paz e violência - e conseguir tocar fundo, sem fazer uma obra demasiadamente zen, a ponto de se tornar incompreensível para aqueles que conhecem pouco da cultura oriental. Mesmo quando há rituais budistas, as ações têm um propósito narrativo e não são simplesmente usadas como recurso estético.
Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera foi rodado no lago artificial Jusan, formado há aproximadamente 200 anos na província Gyeongsang. Já o monastério foi construído exclusivamente para o filme.
