23/07/2026
Drama

Vênus

Maurice (Peter O’Toole) é um ator veterano que não tem muitas aspirações na vida. Mas tudo muda quando conhece a adolescente Jessie (Jodie Whittaker), filha da sobrinha de seu melhor amigo. Os dois travam uma relação cheia de amor e ódio, encontrando um novo sentido em duas vidas.

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Há alguns anos, a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood ofereceu um Oscar honorário ao ator irlandês Peter O’Toole (Tróia, Lawrence da Arábia) – mas ele não queria aceitar. Dizia que essa premiação era como uma aposentadoria forçada. Era como se Hollywood estivesse afirmando que ele estava velho demais para fazer algum outro grande trabalho no cinema. Ele acabou aceitando o prêmio, no final das contas, mas isso não o impediu de realizar outro grande trabalho no cinema, o que acontece no drama Vênus. O´Toole acabou sendo indicado ao Oscar de Melhor Ator (a oitava indicação de sua carreira) e representa a maior ameaça no caminho do favorito Forest Whitaker, protagonista de O Último Rei da Escócia, que levou o Globo de Ouro na categoria. Não seria nenhuma surpresa se a Academia desse o prêmio ao veterano, cujo trabalho é muito mais matizado do que o de Whitaker.

O’Toole interpreta Maurice, um ator sem muitas expectativas na vida que, entre uma discussão e outra com amigos, também idosos, faz alguns papéis no cinema e na televisão. Essa tranqüilidade que divide com os colegas Ian (Leslie Phillips) e Dona (Richard Griffiths) é ameaçada com a chegada da adolescente Jessie (Jodie Whittaker), filha da sobrinha do primeiro.

Típico fruto do século XXI, a garota é a soma de uma intensa mistura cultural e um poço de insegurança. A menina é uma tortura para o tio e acaba ficando aos cuidados do personagem de O’Toole. Essa interação entre essas duas gerações, com uma enorme lacuna entre si, é o que guia o roteiro, do escritor inglês Hanif Kureishi (autor do roteiro de Minha Adorável Lavanderia, de Stephen Frears, e do romance Intimidade, que inspirou filme homônimo e inédito no circuito comercial brasileiro, dirigido pelo francês Patrice Chéreau).

O primeiro passo de Jessie em direção à auto-afirmação é posar de modelo numa escola para artistas. Porém, a inibição da garota impede que ela tire o roupão. Maurice a leva a uma galeria e a apresenta a um quadro de nu, chamado “Vênus”. A relação entre os dois começa a se estreitar. São dois tipos em busca de uma segurança e atenção que já não têm mais.

Os caminhos, no entanto, são tortuosos. Tanto Jessie quanto Maurice têm seus interesses específicos que condizem com suas idades. Nesse sentido, Kureishi e o diretor Roger Mitchell (da comédia Um Lugar Chamado Notting Hill) acertam quando não transformam os dois personagens em meros emblemas de suas gerações.

Existe uma cena que resume todo o espírito do filme. Inconformado com a falta de cultura da garota, o ator cita Shakespeare e pergunta-lhe quem é o autor. Ela não sabe, mas também não perde a pose, citando uma canção pop e perguntando ao homem mais velho de quem é a composição. Maurice também não sabe e o diálogo acaba por aí. Uma fala a mais poderia ter estragado completamente a cena. Sorte que não se fica buscando explicações, ou repetindo o óbvio.

Se às vezes a relação entre Jessie e Maurice esbarra numa vertente que lembra Lolita, não há um desejo doentio entre as partes, porém. Aqui, o outro representa a experiência de vida e o frescor da juventude. O flerte entre os dois vêm mais da solidão do que de um desejo propriamente sexual.

A trilha sonora, por fim, que inclui diversas canções da inglesa Corinne Bailey Rae, dá um toque mais juvenil pop ao filme – o que, às vezes, soa deslocado, mas não chega a atrapalhar.

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