O’Toole interpreta Maurice, um ator sem muitas expectativas na vida que, entre uma discussão e outra com amigos, também idosos, faz alguns papéis no cinema e na televisão. Essa tranqüilidade que divide com os colegas Ian (Leslie Phillips) e Dona (Richard Griffiths) é ameaçada com a chegada da adolescente Jessie (Jodie Whittaker), filha da sobrinha do primeiro.
Típico fruto do século XXI, a garota é a soma de uma intensa mistura cultural e um poço de insegurança. A menina é uma tortura para o tio e acaba ficando aos cuidados do personagem de O’Toole. Essa interação entre essas duas gerações, com uma enorme lacuna entre si, é o que guia o roteiro, do escritor inglês Hanif Kureishi (autor do roteiro de Minha Adorável Lavanderia, de Stephen Frears, e do romance Intimidade, que inspirou filme homônimo e inédito no circuito comercial brasileiro, dirigido pelo francês Patrice Chéreau).
O primeiro passo de Jessie em direção à auto-afirmação é posar de modelo numa escola para artistas. Porém, a inibição da garota impede que ela tire o roupão. Maurice a leva a uma galeria e a apresenta a um quadro de nu, chamado “Vênus”. A relação entre os dois começa a se estreitar. São dois tipos em busca de uma segurança e atenção que já não têm mais.
Os caminhos, no entanto, são tortuosos. Tanto Jessie quanto Maurice têm seus interesses específicos que condizem com suas idades. Nesse sentido, Kureishi e o diretor Roger Mitchell (da comédia Um Lugar Chamado Notting Hill) acertam quando não transformam os dois personagens em meros emblemas de suas gerações.
Existe uma cena que resume todo o espírito do filme. Inconformado com a falta de cultura da garota, o ator cita Shakespeare e pergunta-lhe quem é o autor. Ela não sabe, mas também não perde a pose, citando uma canção pop e perguntando ao homem mais velho de quem é a composição. Maurice também não sabe e o diálogo acaba por aí. Uma fala a mais poderia ter estragado completamente a cena. Sorte que não se fica buscando explicações, ou repetindo o óbvio.
Se às vezes a relação entre Jessie e Maurice esbarra numa vertente que lembra Lolita, não há um desejo doentio entre as partes, porém. Aqui, o outro representa a experiência de vida e o frescor da juventude. O flerte entre os dois vêm mais da solidão do que de um desejo propriamente sexual.
A trilha sonora, por fim, que inclui diversas canções da inglesa Corinne Bailey Rae, dá um toque mais juvenil pop ao filme – o que, às vezes, soa deslocado, mas não chega a atrapalhar.
