Todos já conhecemos as paredes e corredores do Overlook Hotel. Também sabemos que neva muito, e que quem entrar no labirinto de topiaria vai ter dificuldades em sair. Também é sabido que há uma dispensa e uma câmara frigorífica com muitos suprimentos. O local fica ilhado no alto inverno, cercado de neve por todos os lados, e os telefones param de funcionar. O único meio de comunicação é um rádio.
Nada disso é novidade, muito menos seu final ou a cena icônica envolvendo Jack Nicholson, um machado, uma porta e uma Shelley Duval aterrorizada. Ainda assim, o filme causa terror – especialmente a cópia restaurada e ampliada que voltou ao cartaz. As dezenas de teorias que surgiram nessas três décadas tentam dar conta das lacunas ou dos borrões inexplicáveis – e já renderam até um documentário, Quarto 237. Mas nada substitui a experiência de ver essa adaptação da obra de Stephen King na tela grande e em alto e bom som.
Na internet, há algum tempo, circula um trailer satírico de O Iluminado que, usando cenas reais do filme, transforma-o numa comédia fofa. Isso é apenas mais uma prova de que o som é tão importante quanto a narrativa aqui para criar um clima doentio prestes a explodir (“Here is Johnny” é a senha). Jack Nicholson nunca esteve tão maníaco, tão assustador e até divertido – parece muito à vontade no papel.
Baseado num famoso romance de Stephen King (conta-se que o autor detestou a adaptação), o filme praticamente não envelheceu em seus mais de 30 anos. Ainda é referência para imitações, que jamais chegaram ao mesmo patamar, e criou novos padrões para o horror que, hoje copiados à exaustão, não surtem o mesmo efeito – mas, é bom lembrar, em O iluminado, eles ainda mantêm um quê de frescor.
Obviamente, em sua essência, O Iluminado é uma história de fantasmas, e nele a câmera é uma presença leve e espectral acompanhando os personagens. É como se tudo fosse visto do ponto de vista dos seres invisíveis que habitam o hotel. Kubrick dizia que achava histórias de fantasmas otimistas, pois sugerem uma vida pós-morte.
Talvez fosse uma brincadeira do diretor, mas O Iluminado é, no fundo, uma afirmação do poder materno, do maior amor do mundo. E a versão restaurada faz a devida justiça ao filme.
