19/07/2026
Drama

Babygirl

Romy é uma executiva de sucesso em sua empresa, casada e mãe de duas filhas. Entretanto, por baixo dessa imagem de perfeição, paira uma fragilidade, que é detectada por Samuel, um jovem estagiário da firma. Arma-se um perigoso jogo de sedução entre os dois. No Prime Video (a partir de 7/5), Apple TV, Google Play e Youtube.

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Babygirl, da diretora holandesa Halina Rejin, foi talvez o filme mais incômodo do Festival de Veneza 2024, onde arrebatou um prêmio de melhor atriz para Nicole Kidman. O que não é surpresa em se tratando de uma obra que aborda o desejo do ponto de vista feminino - e não um desejo qualquer e sim um que envolve jogos de poder, submissão e uma ponta de masoquismo.

Chama mais atenção ainda um filme assim por ter à frente do elenco ninguém menos do que uma estrela internacional como Nicole Kidman - que, curiosamente, esteve naquele mesmo festival, 25 anos atrás, para a exibição de outro filme polêmico envolvendo sexualidade e perversão, De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, ainda ao lado do então marido Tom Cruise.

La Kidman tem coragem, não há dúvida, num filme em que ela expõe muito o próprio corpo, em cenas de sexo quentes, a primeira com o marido, Jacob (Antonio Banderas), as demais, em jogos eróticos com um jovem amante, Samuel (Harris Dickinson, visto em Triângulo da Tristeza).

Há mais de um tabu, no entanto, neste roteiro, também assinado pela diretora. Além do sexo disparado por gatilhos proibidos e polêmicos, o do poder feminino, ambos articulados na figura da protagonista vivida por Kidman, Romy, uma executiva de sucesso numa empresa de robótica que galgou seu caminho ascendente na unha.

Essa mulher linda, ultra bem-tratada e no controle de todos os detalhes da vida profissional e das filhas cai sob o domínio de Samuel, um estagiário na sua firma, muito mais jovem e manipulador, que identifica uma brecha de fragilidade nesta construção de mulher que Romy armou para si mesma. 

A diretora não teme ser provocativa na elaboração de suas cenas, em que o incômodo surge menos pelo sexo em si e muito mais por este jogo entre Romy e Samuel que inclui rituais de humilhação e colocam-na em perigo - porque ela não quer arriscar sua posição no mundo, muito menos sua família.

A tensão que a diretora habilmente constrói está não só na expectativa do que irá acontecer na vida de Romy mas do que move, afinal, esta mulher e seu jovem amante - ele quer ser um chantagista? Não há uma leitura banal de suas motivações. O mais interessante é como se consegue mover as engrenagens da história de um modo que acaba tendo uma leitura feminista, ainda que não pareça à primeira vista. 

Babygirl é, no fundo, um longo caminho para um empoderamento e não só de Romy, ainda que não se compartilhe seus peculiares gostos sexuais, que estão enraizados numa história pessoal - sem que o filme pretenda nenhuma psicologização desse aspecto. Há uma provocação em curso e ela não prevê o julgamento dos personagens, não aspira a ser um conto moral e nem punitivo. 

E, sendo um filme conduzido por um olhar feminino, é capaz de produzir um admirável confronto de gerações masculinas numa de suas sequências finais, que é um primor de ironia. Essa ironia incomodou parte do público em Veneza, mesmo numa das sessões de imprensa, a que eu assisti, em que não houve muitos aplausos, mas se ouviu um dos homens presentes na sala gritar, em espanhol: “Bochorno!” (literalmente, embaraço ou vergonha). A repercussão, quando passar nos cinemas, promete ser igualmente divisiva. Ponto para o filme ser capaz de despertar reações assim.

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