18/07/2026
Terror Drama

A Noiva!

Frankenstein, a criatura criada por um cientista a partir de partes de cadáveres no século XIX, surge na Chicago de 1930 à procura da dra. Euphronious, que faz experiências semelhantes. A intenção dele é convencer a médica a criar-lhe uma noiva, o que ela faz ressuscitando Ida, uma moça morta num acidente depois de um conflito com um mafioso. Mas a noiva tem suas próprias ideias a respeito de seu comportamento. Na HBO Max.

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Em seu segundo filme como diretora, A Noiva!, Maggie Gyllenhaal demonstra que não está a fim de facilitar a vida de ninguém, nem do público ou a sua própria, criando um projeto com muita ambição. Começando pela classificação da obra, que ela roteirizou, e mistura elementos de terror, romance, comédia, policial, musical e algo mais. 

A liberdade artística com que ela se apropria de todos esses elementos é um grande atrativo neste filme inquieto, que mais uma vez bebe na fonte inesgotável de Frankenstein, o livro que a jovem Mary Shelley escreveu em 1818, lançando uma obra que não cessa de inspirar novas leituras. A própria Mary, aliás, comparece como um fantasma nesta história, interpretada por Jessie Buckley, intérprete também de Ida, uma jovem habitante da perigosa Chicago dos anos 1930. Vítima de um acidente depois de um incidente envolvendo mafiosos locais, Ida acaba ressuscitada por uma outra cientista heterodoxa daqueles dias, a dra. Euphronious (Annette Bening), para atender à inusitada demanda do monstrengo Frankenstein (Christian Bale), que bate em seu consultório tentando dar um fim à sua longuíssima solidão.

Já houve antes, é verdade, versões à procura de uma companheira para a criatura, a partir de A Noiva de Frankenstein (1935), de James Whale. Mas o que a diretora e roteirista procura aqui é muito mais do que isso, é justamente a idéia de que uma mulher, morta por não atender ao que se esperava dela, possa renascer não tendo de submeter-se apenas e tão somente aos desejos de quem a recriou. 

Há portanto um feminismo implícito nesta mulher rediviva mas sem memória do próprio passado, a quem Frankenstein dá o nome de Penny, atribuindo-lhe uma biografia inventada e o compromisso de noivado com ele. Mas Penny está muito mais sedenta de aventuras, além de ser sexualmente mais liberada do que esta criatura que a acompanha, impondo desafios novos em cada sequência de sua rota.

Penny é, genuinamente, uma mulher com curiosidade incansável e sede de viver, inspirada também pelos seus solilóquios com a voz interior de uma Mary que não só compreende o sufocamentos imposto às mulheres de sua época como se rebela pelo longo silêncio sofrido pela própria morte. Penny/Ida será, portanto, literalmente possuída pelo espírito de Mary, levando-a a viver aventuras perigosas com Frankenstein, formando um casal com um toque de Bonnie e Clyde. E não esqueçamos também da intrépida vingadora vivida por Uma Thurman em Kill Bill, também chamada de A Noiva - que, por coincidência, volta aos cinemas brasileiros também esta semana. 

O musical entra na história de uma maneira visceral. Primeiro, pela fixação de Frankenstein pelos filmes e a figura de um famoso ator de musicais da época, Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal, pela primeira vez dirigido pela irmã). Segundo, pelas sequências musicais vividas pela dupla de protagonistas, como numa festa de casamento, e que dão combustível ao dinamismo da história - que tem também um quê de cartoon, apesar da extrema violência de algumas cenas, na esteira da frenética perseguição ao estranho casal, da qual participam vários policiais e os detetives Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e Myrna Mallow (Penélope Cruz).

Depois de estrear como diretora com A Filha Perdida (2021), Maggie Gyllenhaal agarra com energia a chance deste segundo filme, que teve um alto orçamento (US$ 80 milhões), um elenco estrelado e pode inscrever seu nome entre os expoentes entre as novas diretoras do momento, como a já consagrada sino-americana Chloé Zhao e a britânica Emerald Fennell, mas com um estilo todo próprio.

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