05/06/2026
Drama

Dolores

A partir de uma premonição, Dolores passa a crer que comprar um cassino a fará rica e feliz. Mas, para isso, precisa convencer a filha, com quem mantém uma relação conturbada, a aceitar vender a casa. Nos cinemas.

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Brigadeiros dançam em meio a granulados de diversas cores, ao som de uma música de Odair José que diz “Felicidade/Não existe/O que existe na vida/São momentos felizes.” Esse pequeno momento sintetiza bem o espírito melancólico e colorido do drama Dolores, dirigido por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, a partir de um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, morto em 2019.

Dolores encerra uma trilogia do diretor marcada por afetos. Como A casa de Alice (2007) e Ausência (2014), o novo filme investiga relações familiares e sociais vividas por personagens periféricos em busca de compreender e viver seus sonhos. Sonhos, aliás, aparecem de maneira simbólica e real neste filme.

Dolores – interpretada por Carla Ribas, também protagonista de A Casa de Alice – é uma viúva na faixa dos 60 anos, que tem um sonho premonitório: deve abrir um cassino e com este ficará rica e será feliz. O problema é que, não só isso é ilegal, mas ela enfrenta vício por jogos, algo que ficou latente por um tempo, mas voltará com força a partir desse momento.

Sua filha, Deborah (Naruna Costa), trabalha costurando e vendendo lingerie na porta de um presídio, e espera o namorado que saíra dali em breve. Ela e Dolores têm uma relação conturbada, que fica ainda mais tensa quando a protagonista necessita de uma assinatura da filha para vender a casa para comprar o cassino. Já Duda (Ariane Aparecida), neta de Dolores, trabalha numa loja de armas, sonha em morar nos EUA, e é envolvida num esquema por seu patrão (Bruno Kott).

A partir do roteiro original, escrito por Teixeira e Sabina Anzuategui, Escobar e Gomes trazem um novo roteiro que se relaciona ao presente – como o vício em apostas e o sonho americano, cada vez mais malfadado – e mantém temas caros ao universo de Teixeira, como o afeto usado como parâmetro de compreensão do outro.

Isso não quer dizer que as personagens se amam e se entendem, pelo contrário. A construção da narrativa está exatamente na incompreensão inicial que leva cada uma das mulheres dessa família a uma situação limítrofe que só o apoio mútuo poderia ajudar a resolver – mas elas estão mais dispostas a descer a um inferno pessoal do que a ceder. 

Povoado quase que exclusivamente por personagens femininas, Dolores é um amplo retrato de paixões dessas mulheres a espera de algo que mude suas vidas, na periferia de São Paulo. Além do trio central, há também Marlene (Gilda Nomacce), esperando a saída de sua companheira, que está presa, e Joaninha (Tuna Dwek), também vendedora na porta do presídio. Já Zezé Motta interpreta a glamourosa e poderosa Jade, dona do cassino que Dolores quer comprar, e uma figura que a inspira. 

O vestido cheio de brilho que Dolores usa quando vai ao cassino é mais um símbolo colorido e vistoso, seu disfarce num mundo de alegrias que contrapõe à dureza e desilusões de sua vida, mas, nem por isso, a ajuda a resolver seus problemas. É apenas um momento de ilusão na vida de uma mulher que sabe como sonhar pode ser libertador. 

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