O drama sobre uma família disfuncional revela o surpreendente fôlego deste primeiro trabalho de ficção do documentarista Chico Teixeira (Criaturas que Nascem em Segredo e Carrego Comigo). Amparada no desempenho verdadeiramente luminoso da protagonista Carla Ribas (premiada nos festivais de Miami e do Rio), a história flui num ritmo tenso para escancarar o enorme impasse existencial dos seis integrantes de uma família – um retrato agudo da classe média baixa brasileira.
Alice (Carla Ribas) é manicure, casada com o taxista Lindomar (ZéCarlos Machado) há 20 anos. O casal tem três filhos jovens, ainda estudando. O cuidado da casa fica entregue a uma avó (Berta Zemel), mãe de Alice. O dinheiro é pouco, o cotidiano, sacrificado. O afeto já é escasso entre o casal, apesar de algum esforço de Alice para reavivar a relação. Outros interesses despertam sua atenção.No caso de Lindomar, meninas bem jovens, no caso de Alice, um antigo amor do passado, Nilson (Luciano Qurino), casado com uma de suas clientes (Renata Zhaneta).
Os filhos, totalmente dependentes economicamente dos pais, escondem seus pequenos segredos. Lucas (Vinicius Zinn), o mais velho, é militar, machista, meio que um espelho do pai e tem um jeito clandestino de ganhar dinheiro. Edinho (Ricardo Vilaça), o do meio, subtrai pequenas somas da carteira da avó. Junior (Felipe Massuia), o caçula, é mimado e começa suas primeiras aventuras com as garotas.
Quando a família se reúne, geralmente apenas à mesa, fica bem claro o esgarçamento das relações e a estreiteza das perspectivas de cada um. Preparam-se enfrentamentos, que colocarão a nu a verdade de cada um.
Optando pela ausência de música, o diretor enxugou e intensificou as emoções a um só tempo. Há um certo clima de Contra Todos, de Roberto Moreira, mas o filme deve algo também a Nelson Rodrigues, nessa sua crônica da decadência de uma classe média encurralada e apática que, apesar de não passar fome, resvala numa existência tão sem direito a sonhos.
Impressionante mesmo é que se trata do primeiro protagonismo em cinema de Carla Ribas. A atriz vem do teatro, onde estreou já depois dos 30 anos e brilhou em peças como A Ver Estrelas, de João Falcão (1995). No cinema, ela passou despercebida em pequenas participações nos filmes No Meio da Rua e O Outro Lado da Rua, ambos de 2003. Nada que nos preparasse para a grandeza de sua atuação aqui, em que dá carne e osso a uma mulher comum e extraordinária.
