Em seu primeiro longa-metragem, Ronaldo German torna-se exemplo de um cinema brasileiro realizado sem a participa��o de grandes produtoras. Com parcos recursos, sem tempo para assegurar o cumprimento de todas as cenas pensadas na elabora��o do projeto e com o desafio de acumular fun��es t�cnicas, o diretor teve de penar para conclu�-lo e, agora, exibi-lo em um punhado de salas por todo o Brasil.
Outro ponto singular nos filmes brasileiros independentes e de baixo or�amento, grupo em que se encontra a obra de German, � a tem�tica social que irrompe na tela - embalada por conceitos pequenos do pensamento elitista dominante e encharcados por velhos preconceitos. Preto no Branco, assim como Contra Todos (Roberto Moreira) e Amarelo Manga (Cl�udio Assis), trabalha com o caos social do Pa�s, utilizando-se de uma vis�o pr�-estabelecida da realidade para o espectador se enquadrar na cr�tica do autor.
Mais do que um retrato sobre hist�rias de vida, grande parte desses filmes, portanto, coloca quem os v� no limiar de seus pr�prios preconceitos, em uma identifica��o determinada pelo olhar do cineasta. Isto �, antes de mesmo de se analisar qual � a concep��o do diretor sobre as quest�es sociais, espera-se que a interpreta��o da obra coloque-se dentro de uma concep��o viciada e dominante. Espera-se, assim, que o espectador caia na armadilha de suas pr�prias convic��es.
Em Preto no Branco, isso se opera de maneira transparente. O filme come�a com uma s�rie de depoimentos em frente � c�mera de alguns dos personagens, contando o seu dia-a-dia na periferia carioca. Entrar ou n�o para o tr�fico, os benef�cios de participar da criminalidade, o apelo da m�e para endireitar o filho, s�o as discuss�es de uma apresenta��o fria e simplista de uma realidade social.
A hist�ria realmente engrena quando um jovem negro (Leandro Santanna) chega em seu primeiro dia de trabalho como office-boy de uma loja para noivas. O garoto mora na favela e, como se viu nos depoimentos, preferiu uma vida longe do crime. Quando � enviado para uma casa de classe m�dia para entregar um recibo e buscar um vestido de noiva, no entanto, ele acaba fumando um baseado (quase for�ado por um amigo picareta) e chega � casa alterado.
Por outro lado, a fam�lia de classe m�dia mostra-se paran�ica, um p�nico passivo de ser a qualquer hora devorada pela galopante viol�ncia carioca. No limite de suas fobias, tanto o pai, quanto m�e, filha (Priscila Assum, de Como Nascem os Anjos) e empregada acabam acreditando que o jovem negro �, na verdade, um assaltante que chegou para atestar as hediondas hist�rias que escutam no r�dio. Dopado pela droga, o garoto n�o entende a situa��o a princ�pio. Mesmo assim, a fam�lia tenta fazer todas as suas vontades. O choque econ�mico e racial � evidenciado com todo o seu potencial.
Embora o filme seja baseado em um texto de Luis Fernando Ver�ssimo, � mais interessante analisar esta produ��o aos olhos do historiador Thomas Skidmore, autor de Preto no Branco Ra�a e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro (Ed. Paz e Terra). Nele, o autor apresenta um bom mapeamento de todo o debate no interior das elites s�cio-culturais do pa�s sobre �o problema racial brasileiro�. Afinal, pelo olhar de German, mais do que a sensa��o de inseguran�a, o problema tamb�m segue certo determinismo biol�gico, tal como para o espectador.
No entanto, essa discuss�o torna-se superficial quando se percebe que os di�logos n�o correspondem �s expectativas, assim como os personagens - pouco elaborados � fazem o espectador evitar qualquer associa��o. Do meio para o fim, a tentativa de inserir um humor negro volta-se contra o filme (em constrangedoras situa��es, muitas delas vulgares), selando de vez qualquer interpreta��o mais s�ria da obra, que ganha ares de brincadeira.
A fotografia tampouco coopera para o resultado final. Como o diretor teve de acumular fun��es e pouco tempo para realizar seu projeto, n�o h� qualquer sofistica��o da imagem, feita exclusivamente em c�meras digitais. A impress�o de uma obra mal acabada torna-se, portanto, um determinante, a partir do princ�pio de que a pr�pria hist�ria n�o � bem resolvida.
Existe, enfim, uma vis�o pr�-estabelecida sobre as mazelas sociais brasileiras, principalmente no que se refere � discrimina��o de ra�a. Na falta de um debate mais rico na tela, resta ao espectador colocar em xeque suas convic��es a respeito desses temas - o que parece ser a vontade do pr�prio diretor. Essa � a mensagem realmente positiva em pouco mais de uma hora de proje��o.
