05/06/2026
Drama

Ninguém Pode Saber

Keiko (You) tem quatro filhos e muda-se para um novo apartamento. Os vizinhos, porém, só conhecem a existência do mais velho, Akira (Yuya Yagira). Eles são filhos cada um de um pai, que não os visita, e não vão à escola. Um dia, a mãe desaparece. Akira decide que, apesar de tudo, deve manter a família unida e cuidar dos irmãos menores. Na Reserva Imovision.

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O quarto longa-metragem de Hirokazu Kore-eda mostra uma ampliação de temas na carreira do talentoso diretor, um dos maiores talentos da nova geração de cineastas japoneses. Se em seus três trabalhos anteriores (Maborosi - A luz da ilusão, Depois da Vida e Tão distante) Kore-eda fixou-se em histórias em torno da morte, aqui ele abre a janela para uma narrativa centrada num grupo de crianças – aliás, bravos atores, embora as idades oscilem entre 6 e 14 anos apenas. Os irmãos Akira (Yuya Yagira, prêmio de melhor ator no Festival de Cannes/2004), Keiko (Ayu Kitaura), Shigeru (Hiei Kimura) e Yuki (Momoko Shimizu) vivem uma vida desregrada com a mãe, Keiko (You). Com figura, voz e principalmente mentalidade infantil, Keiko envolve-se com amores levianos, - por isso, cada criança tem um pai diferente e nenhum deles se preocupa com seu filho. Entrando e saindo de empregos, Keiko também costuma passar longas temporadas longe de casa, abandonando os filhos à guarda do mais velho, Akira, de apenas 12 anos.

Dono de um enorme sentido de responsabilidade pelos irmãos e consciente de que pedir ajuda externa - a vizinhos, assistência social ou policiais - apenas fará com que os quatro irmãos não possam continuar a viver juntos, Akira empenha-se no limite de seus recursos de criança para continuar alimentando e guardando os irmãos - que, como ele, nunca foram à escola. Fora Akira, ninguém deixa o apartamento e os vizinhos nem mesmo suspeitam da existência destas crianças, exceto o mais velho.

Um dia, a mãe desaparece de vez, aprofundando a angústia de Akira. O dinheiro vai acabando, as contas de luz e água se atrasam, o aluguel não é pago. A degradação física e perigos maiores ameaçam os quatro meninos, a quem se junta ocasionalmente uma adolescente desgarrada da família, Saki (Hanae Kan).

O mais espantoso é que Kore-eda baseia-se numa história real, ocorrida em Tóquio em 1988. A essa realidade acrescentou, com certeza, os poderosos elementos ficcionais que fornecem a moldura dramática deste conto sobre a tenacidade infantil, seu apego à vida, seu sentido de solidariedade - e também sobre a dolorosa indiferença dos adultos a uma realidade que está bem debaixo de seu nariz.

O método do diretor, que trabalhou com seus atores mirins num verdadeiro laboratório de atuação, por um ano, num apartamento em Tóquio, confere ao filme a naturalidade de um documentário, combinada à intensidade emocional de um drama – obtendo o melhor de dois mundos. A única falha, ainda que menor, está no uso da música. Num filme tão intenso e minimalista, o recurso musical é, por vezes, excessivo.

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