Somos todos pessoas más? Corruptíveis frente a adversidades? Estas são apenas algumas das questões que o diretor espanhol Alex de la Iglesia aborda de forma completamente inusitada em seu novo filme, A Comunidade. Coberta por uma camada generosa de humor negro, a produção traz a avareza, a cobiça e a inveja como sentimentos inatos em cada um. Tudo, portanto, é uma questão de oportunidade para fazê-los aflorar.
Com um slogan, que infelizmente só aparece na versão hispânica - "hay algo podrido en esta casa" -, o filme não está falando apenas do decrépito prédio onde se passa a história, mas da consciência de todos os personagens. Uma junção de sentimentos pequenos que norteiam as ações e mostram que ninguém, inclua-se os espectadores, tem escapatória. Iglesia, nesse sentido, não nos mostra alternativas ou qualquer palavra de consolo.
O que é impressionante! Afinal o filme causa tanto asco - seja pelo corpo putrefato, seja pelas baratas e lixo que pingam do teto esburacado - que imagina-se impossível parecer mais negra a ambição humana. Mas, apesar de tudo, o diretor nos deleita com a completa falta de escrúpulos dos personagens.
Protagonizada pela impressionante Carmen Maura, antiga coqueluche dos filmes de Pedro Almodóvar (A Lei do Desejo e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos), trata-se da história de uma agente de imobiliária que se encanta com um apartamento em um prédio velho e sujo de Madri, na Espanha. Sem pensar duas vezes, resolve passar a noite no local e fazer um jantar íntimo para seu marido, um infeliz sem perspectiva que não consegue um emprego no qual seja valorizado.
Quando vai averiguar um vazamento ocasionado pelo morador do andar superior ao seu, começa toda a esquizofrenia do enredo. O vizinho milionário morto, sinistros vizinhos que parecem mais abutres, 300 milhões de pesetas escondidas em algum lugar, um rapaz anormal que se veste de Darth Vader, são apenas alguns instrumentos dessa intrincada história.
E é essa trama que mantêm os espectadores presos na poltrona. Não apenas pelo suspense instigante, mas porque nos mostra o quão horríveis podem ser nossas ações. A violência mascarada que Iglesia insiste em mostrar. Tal como alguns de seus filmes anteriores, Perdita Durango (1997) e El Dia de la Bestia (1995).
Ele prova que a violência real é infinitamente maior em quantidade e qualidade, quando não leva a um crime, quando ela não é proibida. Isto é, em vez de matar alguém, pode-se amargar a vida dessa pessoa todos os dias. E é isto que os personagens fazem. E que, possivelmente, nós também fazemos.
