Com um orçamento pequeno para uma produção tão bem cuidada, o diretor se cercou de excelentes profissionais. Ao lado do trabalho preciso dos atores, tem a direção de arte de Andréa Velloso, a cenografia de Helcio Pugliese, a fotografia de Jacob Solitrenick, a música de Lívio Tragtenberg que se fundem com precisão na história densa e que acabam se tornando também personagens da trama. A partir de uma peça teatral de Fernando Bonassi, de onde extrai diálogos econômicos e precisos, o roteiro foi elaborado para servir não só ao trabalho da atriz Débora Duboc e do ator Claudio Jaborandy, mas para explorar cada detalhe da produção. Nada está fora de lugar.
A solidão de Lena, uma ex-gerente de hotel do centro de São Paulo, grávida e abandonada pelo amante, se amplifica naquele bar-restaurante de beira de estrada, ao lado de um garimpo abandonado. O ritmo lento do início, bastante teatral, antes de incomodar, prepara a platéia para a desesperada tentativa da personagem em encontrar uma saída para o beco existencial onde foi lançada. A chegada de Vilela, de começo rechaçada, irá despertar aos poucos a sensualidade e sexualidade adormecidas em Lena. Este estranho pode muito bem ser o caminho da retomada.
Vilela, um PM com problemas na corporação, chegou até este lugar para esperar que tudo se acalme e possa voltar a São Paulo. Subalterno do amante de Lena, deixa a obediência e a amizade de lado quando vê a chance de retomar a vida longe dos seus problemas e construir um futuro ali. Para Lena, cansada de guerra, ele é apenas mais um sonhador. Mas com a insistência de Vilela, e mesmo dentro daqueles limites de desolação e abandono a que se entregou, a mulher antevê uma saída.
O desfecho para uma história de redenção e amor não poderia ser diferente naquele mundo inóspito, tanto em paisagem quanto em sentimentos brutalizados pelo ambiente e desilusões. Mesmo a gravidez é encarada e vivida por Lena como um terrível acidente de percurso. Seu distanciamento inicial daquela criança aparece escancarada num diálogo curto e ácido que trava com Vilela: "Esse calor, essa barriga". Ao que ele rebate com o chavão: "Tem um lado bom". E ouve a resposta definitiva: "O lado de fora". Alternando dor e desesperança com a busca do eterno retorno, a relação entre os dois vai se impregnando de violência, a única herança reservada aos deserdados.
Toni Venturi nos revela sem nenhum anestésico os grandes dramas vividos por pessoas comuns e à margem da abastada sociedade do país. Latitude Zero é ousadamente autoral e comprometido com a discussão que transcende questões meramente pessoais. É um filme que foge dos padrões hollywoodianos a nós impingidos atualmente: da paisagem desolada do Planalto Central direto para o estômago do espectador. Sem concessões e em uma única palavra: visceral.
Cineweb-8/3/2002
