Embora o filme deixe de lado todos os malabarismos narrativos do romance, com idas e vindas no tempo e espaço, o longa consegue captar a essência da narrativa de Foer, que em sua obra tem lidado com a questão da história (familiar e do mundo) na construção da identidade do indivíduo.
O pano de fundo do holocausto na Ucrânia pode dar a impressão de que o filme seja um drama de época pesado e arrastado – longe disso. Uma Vida Iluminada está mais para uma comédia agridoce sobre um jovem judeu norte-americano que vai à Europa em busca da mulher que salvou a vida de seu avô. Um olhar terno do presente a um passado doloroso.
O personagem tem o mesmo nome do escritor do livro, Jonathan, e desde pequeno gosta de colecionar objetos inusitados, guardados em saquinhos num quarto especial. Pouco antes de morrer, sua avó lhe entrega uma foto antiga do avô, que começa a representar um mistério para o rapaz.
Na Ucrânia, em busca da mulher que ajudou o seu avô a fugir dos nazistas, ele será guiado por um jovem tradutor (que conhece muito mal o inglês), o avô cego e uma cachorra chamada Sammy Davis Jr, Jr. Desse diálogo entre dois continentes e duas gerações, surgem as situações mais engraçadas e ternas do filme, que a partir de então se torna um road movie.
O quarteto sai em busca da mulher misteriosa. Ao mesmo tempo, mergulha numa viagem de auto-descoberta e aceitação, explorando feridas do passado histórico e pessoal que interfere no presente de cada personagem.
O tradutor é interpretado pelo hilariante Eugene Hutz, cantor e vocalista da banda de punk cigano Gogol Bordello, que também assina a trilha sonora do filme, com músicas regionais.
Com fotografia de Matthew Libatique (Réquiem para um Sonho), Schreiber cria um mundo de choque entre culturas com um olhar carinhoso para o inusitado. Alguns momentos são inesquecíveis, como o campo florido de girassol ou a água do rio iluminada à noite. O cineasta se mostra não só um bom diretor de atores, como também um ótimo contador de histórias e criador de imagens.
Embora o roteiro tenha deixado de fora boa parte do livro, principalmente aquela relacionada à história da aldeia e o passado de diversos personagens, assim como os malabarismos narrativos e lingüísticos de Foer, Uma Vida Iluminada se sai bem ao mostrar o presente refletindo o passado que ao mesmo tempo o ilumina. O roteiro foi premiado pelo júri da 29a Mostra Internacional de Cinema.
