06/06/2026
Drama

Árido Movie

Jonas é um jornalista de TV de São Paulo que viaja ao interior pernambucano, para enterrar o pai, que foi assassinado. No caminho, conhece Soledad, uma videomaker que prepara um documentário sobre a água. Sem que Jonas saiba, três amigos seus vão atrás dele.

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Lírio Ferreira, um dos diretores (ao lado de Paulo Caldas) do celebrado Baile Perfumado (1996), volta ao sertão para falar da contradição básica que divide não só Pernambuco, sua terra natal e ambiente do filme, como o Brasil: o arcaísmo contra a modernidade. Na verdade, continua uma conversa que vem desde Baile Perfumado e o faz com muita propriedade, poucas certezas, alguns preciosismos. Do que resulta um filme áspero, imperfeito e fundamental. Ninguém pode se dar ao luxo de ignorar o que Lírio tem a dizer, ainda que seja para discordar.

A primeira seqüência, num bar barato de beira de estrada, mostra o assassinato de Lázaro (Paulo César Peréio). Quem o matou foi o índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcelos), inconformado porque o homem queria seduzir sua irmã, a escultural Wedja (Suyane Moreira). A morte deflagra a história, pois Lázaro é membro da uma das mais influentes famílias do vale do Rocha, terra árida do interior pernambucano onde o que mais prospera é a miséria, o conchavo político e a vingança sangrenta, alimentados pela seca que embranquece a paisagem – aliás, fotografada com luz estourado e um esplêndido contraste por Murilo Salles (que não fazia uma direção de fotografia desde Tabu, de Júlio Bressane, em 1982).

Em São Paulo, a notícia da morte atinge Stella (Renata Sorrah), há muitos anos separada de Lázaro, e especialmente o filho dos dois, Jonas (Guilherme Weber). Repórter meteorologista de TV, Jonas mal se lembra do pai. Mas decide que é preciso empreender esta longa viagem para enterrá-lo.

Nessa longa estrada que une as duas desiguais pontas do país – uma das muitas dualidades desajustadas do Brasil lembradas no roteiro – Jonas conhece Soledad (Giulia Gam), uma videomaker paulista que prepara um documentário sobre a água no sertão. Nesse ponto, a viagem abre-se em dois focos: o de Jonas e Soledad e, em paralelo, dos três amigos da época da faculdade de Jonas, Verinha (Mariana Lima), Bob (Selton Mello) e Falcão (Gustavo Falcão).

Não poderia haver viagem mais distinta do que a do casal e do trio. Soledad e Jonas empenham-se num tipo particular de descoberta dos ambientes e pessoas por onde passam, fora o mergulho emocional de Jonas no próprio passado, do qual está totalmente desenraizado. Enquanto isso, seus amigos – que o seguem, mas não alcançam – são mauricinhos soltos na vida, cuja única busca é o prazer pela bebida, maconha, o que vier.

No destino final, no sertão pernambucano, as leis do imobilismo aguardam para tentar aprisionar todos na sua rede. Jonas descobre um mundo dominado por jagunços, autoridades corruptas e uma família medieval, que o espera para fazer justiça com as próprias mãos.

A presença dos índios na história é um aspecto interessante e realista, já que Pernambuco é um dos estados com maior população indígena do País (tem três reservas). Fora Wedja e o perseguido Jurandir, uma figura luminosa aqui é a de Zé Elétrico (José Dumont, como sempre iluminado). Ele é um verdadeiro filósofo, pragmático e consciente de tudo o que está à sua volta, ainda que não possa interferir a fundo no curso dos acontecimentos. É a consciência, uma espécie de centro moral, embora cínico e cético, do filme.

Soledad, em sua busca de retratar com alguma objetividade os diversos personagens desse mundo, encontra o místico “Meu Velho” – vivido por um José Celso Martinez Corrêa imbuído do espírito de Antônio Conselheiro, cuja saga vem encenando no teatro. Mas, nesse terreno místico, tanto quanto no político, oculta-se a manipulação.

Cada personagem tem a sua verdade, o seu ponto de vista, mas nunca se procura fechar as respostas. Árido Movie é uma sólida coleção de perguntas dolorosas, profundas, sinceras e essenciais. Quem se importa com o Brasil, tem de assistir a este filme.

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