25/08/2026
Drama

Anjos do Sol

Maria é uma menina de 10 anos que é vendida pelos próprios pais miseráveis. Vai parar num bordel no meio de um garimpo – um lugar violento, no meio do nada, de onde a possibilidade de escapar é praticamente nenhuma. Maria divide um duro cotidiano de exploração com várias colegas, entre elas Inês e Celeste. Maria e Inês planejam fugir.

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Abordando um tema difícil, a exploração sexual de crianças, capaz de espantar telespectadores mais afeitos ao escapismo, Anjos do Sol surpreende positivamente. Fruto de um trabalho de pesquisa que consumiu nove anos e se destinava, em princípio, à produção de um documentário, o resultado reuniu sensibilidade e contundência na justa medida. Nada mau para um estreante em longa, o gaúcho radicado no Rio Rudi Langemann. Ainda que seja um estreante com boa estrada no cinema de ficção, começando em Porto Alegre, há cerca de 20 anos, exercendo funções diversas em filmes de Carlos Gerbase, Werner Schünemann e Giba Assis Brasil.

Um dos acertos da história é ver o dramático tema da prostituição infantil pelo lado de dentro, ou seja, pelo ângulo de suas pequenas vítimas. Um recurso que permite às personagens assumirem sua humanidade e dignidade. Não são monstros nem estatísticas, são seres humanos aprisionados numa situação para elas inescapável, o universo da exploração sexual que, segundo o levantamento do diretor, atinge um assustador universo de 100.000 crianças no Brasil.

A se acreditar nestes números, é em boa hora que Langemann atualiza o visceral Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna (1976), uma assumida inspiração do diretor gaúcho. O que nos incomoda como espectadores é constatar que, 30 anos depois, um problema dessa ordem persista inalterado. Mais uma situação do Brasil profundo que carece de transformação urgente.

Carregado de situações pesquisadas na realidade – como um degradante leilão de meninas virgens -, o filme evolui em ritmo de denúncia, sem embarcar no discurso. Sua dramaturgia simples e eficiente garante autenticidade à história de Maria (a estreante Fernanda Carvalho, que tinha 10 anos à epoca das filmagens), uma menina vendida pelos próprios pais miseráveis e que vai parar num bordel no meio de um garimpo – um lugar violento, no meio do nada, de onde a possibilidade de escapar é praticamente nenhuma. O paralelo com a situação de uma senzala ou navio negreiro, insinuados em alguns momentos, é óbvio mas funciona, porque é dolorosamente real.

No bordel, Maria divide um duro cotidiano de exploração com várias colegas, entre elas Inês (Bianca Comparato) e Celeste (Mary Sheila). Dentro deste verdadeiro pesadelo a roubar sua infância, Maria e Inês sonham com a fuga. Inúmeros incidentes pontuam sua trajetória, que tem um intervalo no Rio de Janeiro, onde Maria encontra a cafetina Vera (Darlene Glória, retornando depois de vários anos).

Antônio Calloni, na pele de Saraiva, dono do bordel, impressiona num papel que ele visivelmente abraçou com paixão. Por isso, compõe um vilão cheio de nuances, o que lhe dá uma face humana excepcional. E lhe permite fugir do que seria fácil, uma caricatura, que nunca acontece.

Outros nomes famosos do elenco, Chico Díaz, Vera Holtz e Otávio Augusto, desempenham seus papéis com a habitual competência. Mas o destaque está todo nas meninas. É difícil deixar de pensar nas verdadeiras Marias, Ineses e Celestes ao sair do cinema.

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