O esforço recompensa. O que se vê na tela é uma animação estilizada e ao mesmo tempo detalhista. Aliás, não dá para se imaginar outra forma de se adaptar esse livro a não ser com animação. Tudo porque na trama existe um terno especial que muda o rosto e o corpo de quem o veste incessantemente.
O figurino é usado pelo policial Fred (Keanu Reeves), que está investigando um traficante chamado Bob, interpretado pelo mesmo ator. Na verdade, eles são a mesma pessoa. Porém, a mente do oficial acabou se dissociando, devido ao uso constante de uma droga chamada Substância D (esse D, vem de várias palavras, mas em especial ‘death’, morte).
Porém, ele nem sempre tem consciência disso, assim como seus colegas de trabalho. Como todos usam o figurino especial na agência, ninguém conhece a verdadeira identidade dos colegas. Os amigos de Bob, todos envolvidos com drogas, também desconhecem a vida dupla do rapaz.
Dick escreveu o livro no final da década de 70, depois de usar drogas por anos. Ao final da obra, ele fez uma dedicatória a diversos amigos que morreram ou ficaram inválidos por causa do vício. E é exatamente esse clima que também permeia o filme, o da perda da inocência. Não por acaso, o escritor é chamado até hoje de visionário.
Linklater não teme transitar entre o noir e os filmes de paranóia dos anos 70, em especial A Trama, protagonizado por Warren Beatty. Assim, O Homem Duplo deixa claro que o século XXI começa com uma retomada da moral daquela década, com valores mais repressivos e descontentamentos. A vigilância governamental faz do filme uma espécie de 1984 viciado em drogas.
