Este foi o caso de seu segundo filme, Respiro, Prêmio da Semana da Crítica em Cannes em 2002. E é mais ainda neste terceiro trabalho, Novo Mundo, que venceu o Leão de Prata em Veneza em 2006.
O tema da imigração de sicilianos para a América no princípio do século XX nada tem de novidade. Entretanto, a abordagem deste belíssimo filme imprime aos seus personagens uma vitalidade que os torna contemporâneos, vivos, palpáveis. E projeta na história a possibilidade de um paralelo com o mundo atual.
O enfrentamento entre uma ignorância rude e uma tentativa de liberdade, presente em Respiro, aqui ganha contornos mais amplos, porque sociais. Em Respiro a luta pela emancipação era basicamente a de uma mulher isolada (Valeria Golino) contra um ambiente preconceituoso e opressor. Em Novo Mundo, é o sonho de uma América onde cresceriam legumes gigantes o que move a família Mancuso a vender o pouco que tem e partir.
Retorna o trio de atores já visto em Respiro, o imponente Vincenzo Amato, como o patriarca viúvo Salvatore, Francesco Casisa e Filippo Puccillo, respectivamente como seus filhos Ângelo e Pietro. Ao seu lado, viaja também a mãe de Salvatore, Fortunata (Aurora Quattrocchi), a única a não desejar abandonar sua aldeia.
A fotografia de Agnès Godard e a montagem de Maryline Monthieux constroem o apuro visual que é a marca registrada do trabalho de Crialese. Um detalhe que serve, mais do que a um mero exibicionismo estético, para criar os mundos dentro da história. Da aldeia pedregosa e escura na Sicília à embarcação precária e atulhada da viagem – verdadeiro navio negreiro moderno – até a chegada no posto de triagem novaiorquino da ilha de Ellis, cada plano tem a sua beleza, mas igualmente a sua função. Não fica de fora o espaço da fantasia, com as seqüências do mar de leite, que evoca a parábola bíblica sobre a terra prometida onde correm leite e mel.
O apuro estético serve também para que o cinema de Crialese conte muito praticamente sem palavras. Não raro se vê um personagem em cena apenas olhando o outro e é possível ler seus pensamentos. Há uma segurança no roteiro para a recriação das condições desta viagem, desde a saída da aldeia siciliana, onde os camponeses vivem descalços, até o embarque que marca seu primeiro encontro com a burocracia. O navio introduz também uma personagem fundamental que veio de outro lugar, a misteriosa inglesa Lucy Reed (Charlotte Gainsbourg).
É visível que Lucy tem um passado que prefere esconder, mas sabiamente nunca se esclarece exatamente qual seja – e nem é preciso. O cinema de Crialese não vive de saltos abruptos, nem de revelações repentinas. É a própria trajetória dos personagens em suas decisões da vida cotidiana que os levará ao encontro da História, feita assim desses pequenos passos, olhares, palavras, recusas, teimosias, delicadezas.
Lucy adere ao clã Mancuso, não sem resistência da matriarca. É visível a paixão que desperta em Salvatore, mas tudo é muito pudico. Lucy, que sabe ler e escrever bem, torna-se instrumental para a família. Salvatore quer uma mulher e uma mãe para seus filhos. A parábola de uma família possível começa a ser construída assim.
Novo Mundo é desses filmes que aderem à memória. Muito tempo depois de visto, ainda ecoam suas imagens mais impressionantes: o navio sacudido por uma tormenta; as mulheres penteando os cabelos umas das outras; a triagem e os exames médicos em Ellis Island; a sala onde se encontram, geralmente pela primeira vez, os noivos arranjados por acordos à distância. Há toda uma atmosfera de época mas não deixam de vibrar ecos modernos nesse mundo assombrado por imigrações infinitas, pobres trocando de continente sem descanso e esperanças rebrotando em mares imaginários de leite bom.
