O primeiro ato de Desejo e Reparação desenrola-se no dia mais quente e seco do ano de 1935. O calor faz com que as pessoas se tornem mais permissivas, diz alguém durante um jantar - que não irá acabar bem, aliás. Esse personagem, porém, desconhece toda a permissividade que percorreu a propriedade dos Tallis ao longo desse dia.
Briony (Saoirse Ronan) tem 13 anos e uma mente muito fértil. Solitária em uma casa de adultos, ela encontra distração criando pequenos contos e peças de teatro. Sua nova obra-prima é “Arabella em Apuros”, que será representada por seus primos do norte na ocasião do retorno do primogênito (Patrick Kennedy). Porém, tudo dá errado.
Uma trágica combinação entre suas frustrações, o calor e sua imaginação fértil resulta numa série de eventos que vai destruir a vida de algumas pessoas – inclusive a dela própria. Briony acredita que sua irmã mais velha Cecília (Keira Knightley) foi seduzida pelo filho de uma empregada, que é muito querido pela família, Robbie (James McAvoy).
O julgamento errôneo de Briony faz com que Robbie vá para a prisão e acabe lutando na França na Segunda Guerra Mundial. Cecília, por sua vez, abandona a sua família e se torna enfermeira. Passos que a própria Briony (agora interpretada por Romola Garai) irá seguir. E, apesar de todas adversidades, o casal Robbie e Cecília tentará viver um romance em tempos de guerra.
Desejo e Reparação é a história de um erro trágico capaz de alterar vidas e a perseverança de uma pessoa em reparar o desastre. O filme é um grande enigma que vai se resolver apenas em seu último ato, quando entra em cena a veterana Vanessa Redgrave, que representa uma das personagens quase ao final de sua vida.
Baseado no romance Reparação, do inglês Ian McEwan (que aqui também é creditado como produtor executivo), o longa é dirigido por Joe Wright (Orgulho e Preconceito), que demonstra saber como transformar em cinema grandes obras literárias. Lançado em 2001, Reparação é considerado uma dos livros mais complexos e bem escritos dos últimos anos, o que elevou o seu autor a um novo patamar – um nome elegível ao Nobel.
Roteirizado por Christopher Hampton (Ligações Perigosas), o filme encontra força e fraqueza no mesmo lugar: ser extremamente fiel ao livro. E fica como exemplo de que para se fazer uma boa adaptação é preciso desrespeitar o original – coisa que Wright fez muito bem em Orgulho e Preconceito.
Certamente, o diretor Wright sabe como usar movimentos de câmera e a montagem em seu favor e assim dar duas versões de um mesmo fato, para podermos ver o que Briony viu e como as coisas realmente aconteceram. Entretanto, o seu excesso de apuro técnico, às vezes, é um gol contra, como num longo plano-seqüência numa cena de guerra em que a virtuose acaba predominando sobre o que seria mais importante, o momento dramático dos personagens, ou seja, o horror de um campo de batalha.
Aos poucos, Desejo e Reparação perde nuances e começa a ser excessivo até chegar ao final que, apesar de manter a mesma resolução do livro, é um tanto limitado cinematograficamente. O tema do livro e do filme é a capacidade que da arte de ser maior do que a vida real e compensar crimes e pecados. Wright e Hampton conseguem chegar a essa mesma indagação moral. Porém, em alguns momentos deixam de dar espaço para a imaginação do público.
