A adolescência é uma das fases mais complicadas da vida de uma pessoa. É a época das descobertas, da angústia, do medo e da insatisfação – não que esses sentimentos desapareçam na vida adulta, mas, geralmente, passam a ser vistos por outro prisma. Poucos cineastas – em especial nos Estados Unidos – dissecam tão bem esse período como Gus Van Sant, tanto em trabalhos passados, (Gênio Indomável e Elefante), quanto neste filme.
Alex (o estreante Gabe Nevins) envolveu-se involuntariamente numa tragédia. Por causa disso, mergulha num estado de negação e alienação. Para expiar sua culpa, o garoto passa horas escrevendo, contando a sua história a um possível interlocutor. Van Sant poderia estar explorando a culpa e a ambigüidade moral do personagem. Mas o objetivo do diretor é mais complexo.
A opção por montar as cenas fora de uma ordem cronológica faz com que Paranoid Park penetre no estado de espírito de Alex, ao invés de esclarecer fatos ou simplesmente contar uma história. É como se os acontecimentos fossem contados seguindo o fluxo de consciência do protagonista, o que torna o resultado mais eficiente do que na ordem direta. Afinal, esse é um filme que busca a imersão de seu público. São momentos de medo e paranóia que consomem a mente do rapaz de 16 anos.
O parque do título é um lugar onde os skatistas se encontram. Embora seja apaixonado pelo esporte, Alex é inseguro de suas habilidades, o que eleva Paranoid Park a um patamar quase mítico, inatingível para ele. Assim, passa horas apenas observando os outros garotos mais experientes.
Deslocado em seu próprio mundo dos skatistas, em sua escola, em seu parco círculo de amigos e em sua família, Alex é simplesmente uma daquelas pessoas que não conseguem se encontrar, por isso passa muito tempo sozinho. Nem em seus breves encontros com a namorada (Taylor Momsen) o garoto é capaz de se conectar verdadeiramente com outra pessoa.
Quando ele termina o romance abruptamente – pouco depois de terem sua primeira relação sexual – o rapaz encontra apoio na amiga Macy (Lauren McKinney), que parece ser a única pessoa a perceber que há algo de errado consumindo Alex. É ela quem sugere ao rapaz escrever sobre a dor que está sentindo.
Esse estado de completa alienação é ilustrado por uma fotografia elegante e eficiente assinada por Christopher Doyle (constante colaborador de Wong Kar-Wai). Porém, as seqüências de skate são feitas em Super 8, assinadas por Kathy Li, o que dá uma textura granulada a estes trechos do filme. Mais do que a prática de um esporte, é como se fosse uma arte – muito próxima do balé.
Com roteiro assinado por Van Sant, baseado num romance de Blake Nelson, Paranoid Park é um retrato honesto de uma juventude para a qual a catatonia parece ser a única solução. Diferente de outros diretores que trabalham personagens na mesma faixa etária – como Larry Clark (Kids) – Van Sant não emite julgamentos, mas explora estados emocionais e como esses afetam a vida das pessoas e o mundo ao seu redor.
Para embalar essa viagem ao fundo das emoções de Alex, a trilha sonora combina temas de Nino Rota (como os de Julieta dos Espíritos e Amarcord), e um pop melancólico, com músicas de Elliott Smith – que Van Sant já havia usado em Gênio Indomável.
Paranoid Park rendeu a Van Sant o Prêmio Especial de 60 Anos do Festival de Cannes, em maio de 2007. Em 2003, no mesmo festival, o cineasta levou o prêmio máximo, a Palma de Ouro, e o de direção com Elefante. Não são apenas os prêmios que os filmes têm em comum. Ambos dissecam a alienação juvenil e as conseqüências dessa catatonia. Porém, se no passado o diretor explorou uma tragédia de grandes proporções, aqui ele a busca no nível pessoal – com resultado não menos devastador.
