Este segmento inicial é uma síntese eloqüente do que vem a seguir. A riqueza de Plainview será sempre assim, escavada na marra das entranhas da terra. Ele não é homem de delicadezas. Por isso, a prospecção de petróleo lhe assenta tão bem.
Plainview só tem de seu o que escava, o que encontra – até o filho (Dillon Freasier), que ele terminará por adorar tanto, embora o afeto numa natureza assim mineral torne-se também pedra bruta.
No embate com o jovem pastor da Igreja da Terceira Revelação, Eli (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine), define-se mais cristalinamente o caráter destes dois motores da iniciativa e da colonização da América do Norte, o capitalismo selvagem de um lado, o fundamentalismo religioso, do outro.
É um tom épico o que o diretor Paul Thomas Anderson semeia, herdeiro mais de John Steinbeck e Terrence Malick do que do Orson Welles de Cidadão Kane. O fato é que o Anderson de Boogie Nights e Magnólia amadureceu em várias direções, algumas inesperadas. Faz grande cinema, digno da melhor tradição de John Huston e do George Stevens de Assim Caminha a Humanidade (1956) – uma das fontes de releitura desta história, ligeiramente adaptada do livro Oil, de Upton Sinclair.
Seu mergulho nos mitos fundadores da América afunda suas raízes no passado e ilumina o presente.O sangue negro que no início do século XX jorrava na Califórnia agora jorra no Iraque, em todos os lugares misturado com o sangue dos homens, embebidos nos delírios do poder e da riqueza.
Interpretado por um Daniel Day-Lewis verdadeiramente possesso, de quem ninguém pode roubar seu segundo Oscar de melhor ator (o primeiro foi em 1989, por Meu Pé Esquerdo), Plainview é um personagem tão impiedoso quanto o Bill the Butcher de Gangues de Nova York. Mas tem muito mais nuances – especialmente em relação ao filho e ao irmão (Kevin J. O’Connor). Nesta paisagem praticamente desprovida de mulheres, amenidades e beleza, ele é o imperador inconteste de uma ordem que, se gerará riqueza, se autodestruirá inabalavelmente por falta de limites.
