09/07/2026
Drama

Lúcia e o Sexo

A jovem Lúcia foge para uma ilha mediterrânea após o desaparecimento de seu namorado, um escritor atormentado. No isolamento, ela se conecta com estranhos e descobre que a linha entre a ficção que ele escrevia e a própria realidade é tênue. Na Filmelier+

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Um dos mais importantes nomes do cinema espanhol, Julio Medem é capaz de extrair uma misteriosa beleza das coincidências e das narrativas circulares. Conta histórias de amor e entrelaça detalhes com uma mística de semideus embaralhando destinos, num mundo no limite da verossimilhança. Medem acredita num tipo de cinema em que não se conta tudo, onde se deixa espaço para a imaginação de quem assiste. Cria, assim, uma obra de personalidade exemplar, obtendo um lugar destacado mesmo num país como a Espanha, onde a genialidade de um Pedro Almodóvar em estado de graça não torna nada fácil a vida da concorrência.

Falando em Almodóvar, algumas outras coincidências unem este belíssimo filme a um dos mais belos de Almodóvar, Fale com Ela. A protagonista do filme de Medem, Paz Vega, faz uma pequena ponta em Fale com Ela, ao lado de Javier Cámara, aqui coadjuvante mas dono do papel central do enfermeiro Benigno do filme de Almodóvar. Aproximando os dois ótimos diretores espanhóis, resta ainda a trilha musical, nos dois trabalhos assinada por Alberto Iglesias - pungente, intenso e apaixonado, como em Tudo sobre Minha Mãe, outro artefato magnífico do ateliê Almodóvar.

Outras referências unem Julio Medem a um trabalho anterior, outra história de amor singularíssima, Os Amantes do Círculo Polar - grande vencedor da seção latina do Festival de Gramado de 1999. Uma atriz daquele filme, Najwa Nimri, também está aqui. Mas não é ela a protagonista, e sim, Lúcia (Paz Vega). No primeiro ato, ela fala ao telefone e foge de uma perda amorosa. Seu rumo é uma ilha, um recanto paradisíaco no Mediterrâneo, onde seu amante, o escritor Lorenzo (Tristán Ulloa), ficou de levá-la, mas nunca cumpriu a promessa.

Nesse primeiro momento, Lúcia lembra Marie Drillon, a personagem devastada pela dor de Sob a Areia e magnificamente interpretada por Charlotte Rampling. Mas a perda de Lúcia é vivenciada de outra maneira, numa idade e perspectiva diferentes. Lúcia exala juventude e sensualidade de uma forma inequívoca, mesmo na dor, que antecipa uma inescapável ressurreição. Um flashback projeta a moça para seis anos antes, puxando o fio de uma fábula encantatória, que parece terminar num impasse, apenas para renascer noutro. Uma verdadeira história sem fim, bem ao gosto de Medem.

O romance entre Lorenzo e Lúcia não poderia ser mais delicioso. Ele é um escritor, ela, uma garçonete que se apaixonou por suas palavras no único livro que ele escreveu. Um dia, Lúcia se declara a ele num café, sob o olhar incrédulo de Pepe, o agente literário dele (Javier Cámara). Nunca se haviam visto antes, nada sabem um do outro. Mas o convite é irresistível.

Ainda nessa fase dourada do romance, Lorenzo entra em contato com outras figuras, como a babá Belén (Elena Anaya), que o conduzem à descoberta de um segredo de seu próprio passado. Todos esses detalhes vão sedimentando a queda do rapaz numa depressão profunda - mas as chaves do mistério permanecem ocultas para Lúcia e só irão se revelando aos poucos, tanto para ela, quanto para os espectadores.

Roteirista de suas próprias histórias, também como Almodóvar, Medem é capaz de criar labirintos narrativos extraordinários, com diálogos poéticos mas naturais, fotografia esplêndida, uma câmera dinâmica, imagens hipnóticas. Um jovem mestre no comando de sua arte, num filme que descobre a sensualidade, a dor e a redenção sob uma luz nunca menos do que apaixonante.

Cineweb-2/8/2002

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