Coutinho e sua equipe subiram numa manhã chuvosa do dia 31 de dezembro de 1999 o morro da Babilônia, no Rio, onde estão encravadas duas grandes favelas que contemplam a cinematográfica orla de Copacabana - Chapéu Mangueira e Babilônia. Não há como não chamar a atenção dos moradores, mas a equipe é recebida de braços abertos, sem desconfianças, e consegue conviver algumas horas com pessoas desconhecidas e generosas.
Na medida em que vai encontrando os moradores pelas vielas tortuosas do morro, Coutinho puxa conversa. É conduzido para conhecer seus barracos e apresentado a outros habitantes. Dessas conversas, a vida de cada um começa a ser revelada. De comum, o drama que a maioria das famílias carrega, com um relato de violência na memória. Filhos e irmãos morreram em confrontos com criminosos, com policiais ou estavam perdidos no caminho de uma bala.
A primeira entrevistada é Fátima, uma divertida evangélica que pintou os cabelos para esperar a passagem do ano. Ela foi hippie na juventude e, leitora de Herman Hesse, batizou um filho com o nome de Sidarta. O jovem foi morto com um tiro.
Djanira é uma mineira idosa que relembra os tempos em que trabalhou como cozinheira e chegou a servir o então presidente Juscelino Kubitschek.
Jorge é um homem acostumado com a câmera. Quando tinha 13 anos interpretou o personagem Benedito no filme Orfeu Negro, de Marcel Camus. A equipe francesa de filmagem partiu rumo a um Oscar e Jorge continuou no morro, onde envelheceu e teve sete filhos, dos quais dois morreram assassinados.
Esses são apenas alguns dos personagens do Morro da Babilônia que contaram um pouco de sua história para as câmeras. São pobres, negros, desempregados e garantem que não trocariam o morro por nada. Mostram a paisagem que vêem da janela, lamentam os infortúnios mas acreditam que não seriam felizes longe dali.
