26/08/2026
Drama

O Príncipe

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Há lacunas que o moderno cinema brasileiro está sabendo romper nestes novos tempos. Uma delas, a de não ter tradição em gêneros como o político. A imensa crise da nação e a maturidade que a arte nacional vem forjando, mesmo que a duras penas, está mudando esse quadro. A prova é a chegada às telas deste estimulante trabalho do diretor paulistano Ugo Giorgetti - que constrói uma reflexão ao mesmo tempo amarga e certeira sobre o País, fazendo boa companhia a O Invasor ,de Beto Brant. Os dois filmes estão com certeza entre as estréias mais viscerais do ano de 2002 e com a possibilidade de impressionar bem mais fundo do que as retinas por um bom tempo.

Sexto longa-metragem de Giorgetti, O Príncipe representa, além disso, um degrau a mais na carreira de um cineasta talentoso, compondo informalmente com Festa (1988) e Sábado (1996) uma trilogia de auto-análise de como o Brasil deu no que deu, a partir do foco da maior metrópole da América Latina.

Quando se olha para a tela de Giorgetti, o que se vê são as ruas de São Paulo, escuras, degradadas, cobertas de lixo e de seres à margem de um desenvolvimento que, se até existe, ainda foi incompetente para encontrar um lugar para a maioria. É com uma infinita tristeza, que não esconde o amor pela cidade - amor que o diretor até nega, dizendo-se "condenado" à cidade em que nasceu - que Giorgetti tece este retrato. Ainda com essa ressalva, é uma amargura de quem se importa, transformando em arte o mal-estar pelo que vê. Uma arte que aponta para um posicionamento, que procura refletir e incomodar. Mais político, impossível.

O guia de Giorgetti nessa viagem ao inferno da modernidade brasileira é um filósofo, Gustavo (Eduardo Tornaghi, que também interrompe uma longa ausência das telas). Auto-exilado em Paris há vinte anos, ele volta a São Paulo no bojo de uma crise familiar. Seu sobrinho, um historiador (Ricardo Blat), foi internado depois um surto psicótico. Ao lado da mãe (Nídia Lycia) e da mulher do sobrinho, Ilda (Márcia Bernardes), Gustavo tenta compreender o que aconteceu. Não só com o sobrinho, mas também com toda essa realidade que ele não reconhece mais.

O próprio desequilíbrio do sobrinho é sintomático. Em suas aulas de história, ele vai alucinando ao reinventar um lugar para o Brasil na História. Em seu delírio, ele acha que o participação do país nos acontecimentos fundamentais do mundo foi coadjuvante demais. A única saída para os problemas que nos afligem seria, então, imaginar uma posição mais destacada, que tirasse a nação de sua quase obscuridade no mundo. Louco ou não, um desejo que se esconde no fundo de cada brasileiro, ainda que a fórmula para atingi-lo não passe pelo fingimento puro e simples. Mas o historiador perdeu a fé na ciência, no próprio trabalho e não encontra outra saída.

Os antigos colegas de faculdade de Gustavo, se não enlouqueceram, tomaram rumos muito distantes do idealismo de vinte anos antes. Marino (interpretado com uma precisão extraordinária por Ewerton de Castro) transformou-se num hábil organizador de eventos culturais, capaz de transformar qualquer coisa num acontecimento digno de atrair marketing e dinheiro. Seu universo é a cidade dos arranha-céus dos Jardins, as academias de ginástica, os carros importados, o telefone celular sempre grudado na orelha, os coquetéis bem regados a champanhe.

Giorgetti, aliás, ergue um contraponto constante entre essa cidade superdesenvolvida e o centro abandonado aos sem-teto, mostrando - como em seus filmes anteriores - o dilema básico do Brasil, desses dois mundos que não convivem, que não encontraram denominador comum para encurtar as distâncias criadas por uma das maiores concentrações de renda do mundo.

Outros amigos de Gustavo tomaram rumos diferentes. Renato (Otávio Augusto, magnífico) é um jornalista no limite do cinismo, não só por ter perdido a fé nas ideologias da juventude como por ter-se tornado paraplégico num acidente, causado depois de mais uma enorme bebedeira. Sua imagem desesperada, declamando trechos da Divina Comédia, de Dante Alighieri, conduzido em sua cadeira de rodas por um Gustavo atônito, no meio da Praça Dom José Gaspar povoada de mendigos, é mais uma dessas imagens inesquecíveis do filme, que dão a chave para o sentimento de perplexidade que ele busca compartilhar.

Um terceiro amigo de Gustavo, Aron (Elias Andreatto), escolheu um destino mais insólito. Vive no centro da cidade, num quartinho modesto, dedicando-se ao serviço social justamente dessa multidão de deserdados que não ganha nenhuma senha nas portarias dos arranha-céus da avenida Luiz Carlos Berrini - num dos quais Gustavo terá um breve encontro com a musa de seu passado, uma poetisa desiludida e entregue também à organização de eventos culturais (Bruna Lombardi). Encontro inútil, em que não há mais do que a possibilidade do silêncio, durante um apagão, que traduz mais uma incongruência do modelo de desenvolvimento do país.

Aron é, ao lado da fotógrafa policial Ilda, o personagem mais positivo do filme. Ambos são capazes de olhar a realidade com uma lucidez tranqüila, que não se esconde nem duvida daquilo que vê e tem a consciência de que, apesar de tudo, a cidade e o país não acabaram e procuram a porta de saída. O Príncipe pode ser um filme amargo, porque sintonizado na realidade imediata. Mas de modo algum é um manifesto niilista. É como uma mensagem, mais uma: "E agora, o que é que a gente faz?"

. Cineweb-9/8/2002

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