Ocelot caminha na contramão do exacerbado uso de tecnologia de ponta de produtoras americanas para construir seus filmes, como já pudemos ver em Kiriku e a Feiticeira. Este Príncipes e Princesas é, mais uma vez, o resultado do cuidado do diretor na confecção de suas animações - foram dez anos de trabalho para levá-lo às telas. Partindo do princípio que toda criança (e não raro, adultos) sempre se imagina como herói, príncipe ou princesa neste caso, Ocelot permite a seus jovens personagens o resgate deste sonho, dando-lhes a oportunidade de (re)construírem as histórias com graça e improviso.
Ao adotar esta narrativa, o diretor demonstra um profundo respeito para com o universo infantil e, ao jogar com o imaginário, recria fábulas onde sempre estão presentes o companheirismo, a lealdade, a busca pela felicidade e a tolerância com a diferença. O respeito é tanto que ele chega a colocar um intervalo no meio do filme e o narrador incentiva o público a comentar a história neste tempo. Uma interatividade que nos remete aos primórdios do cinema e que passa a responsabilidade aos adultos no processo de entendimento das crianças. Dos seis episódios, apenas a fábula japonesa não tem o príncipe e a princesa do título, mas uma senhora idosa e um ladrão desajeitado como protagonistas.
O trabalho é competente e inusitado, mas resta a dúvida se as crianças, acostumadas ao ritmo ágil dos modernos desenhos animados americanos e japoneses, que dominam este mercado, conseguirão manter-se atentas e quietas nas cadeiras durante a projeção. Os acompanhantes adultos certamente terão uma resposta mais adequada a esta sofisticada forma de animação.
