É fácil entender porque o cineasta Cristiano Burlan, 39 anos, cuja vida foi tão impregnada pela morte, interessou-se em filmar uma nova versão de Hamlet, de William Shakespeare. Alguém que, como ele, perdeu mãe, irmão e vários amigos de forma violenta, sintoniza-se sem esforço com a dolorosa fúria do angustiado príncipe órfão da Dinamarca.
Como seria de se esperar, a versão de Burlan, que foi o grande vencedor do Festival É Tudo Verdade 2013 justamente com Mataram Meu Irmão, recusa a pompa e a nobreza, situando-se na São Paulo de hoje. Entretanto, o andaime dramático de Shakespeare, assim como diversos de seus diálogos, estão no filme – que é despojado do ponto de vista de encenação, figurinos e cenários apenas para aproximar mais a tragédia dos espectadores atuais.
O despojamento, porém, não limita as intenções do realizador, que parte de uma encenação teatral, com um elenco encabeçado por seu habitual parceiro artístico, Henrique Zanoni (que representa Hamlet) e a interrompe para que os atores discutam, metalinguisticamente, seus personagens. Zanoni, por exemplo, descreve seu personagem à perfeição: “Não é bossa nova, é rock’n’roll”. Trilha que emoldura, também, os passeios do príncipe nas ruas paulistanas, a toda velocidade na Marginal do Tietê ou nos trens e metrô.
Particularmente interessantes são as participações do Fantasma (Jean-Claude Bernardet) que, na pele do pai de Hamlet assassinado, representa uma espécie de alterego e consciência culpada do filho, o incitador de sua reação e, em última análise, o catalisador de sua destruição. Particularmente sagazes são as observações de Bernardet sobre o caráter de Hamlet, confrontando suas hesitações.
Outro olhar novo sobre a peça de 450 anos é a da jovem atriz Ana Carolina Marinho. Intérprete de Ofélia, ela vê mais força e possibilidades em sua personagem do que aquelas que lhe legou Shakespeare.
Momentos encenados da peça se intercalam com estas conversas com os atores e também com uma apresentação de rua, no centro velho de São Paulo, em que o elenco colhe opiniões dos espectadores.
Esta ida e volta da história, apesar de sua fragmentação, lhe dá vida e movimento – já que o enredo de Hamlet é sobejamente conhecido, seria redundante meramente replicá-lo.
Um momento intrigante e que sinaliza as ambições do diretor com o filme é aquele que mostra um suposto assassinato na rua, em imagens de uma câmera de segurança, e o temor dos passantes de se aproximarem da suposta vítima, que pode nem mesmo estar morta. Dá o que pensar a maneira cotidiana como se reage – ou não - diante da morte.
