09/07/2026
Drama

Hamlet [2014]

"Hamlet", de William Shakespeare, é reencenada na São Paulo de hoje. Os atores discutem seus personagens. Também os espectadores de uma apresentação no centro velho de São Paulo dão sua opinião sobre os temas da peça: vingança, traição, honra, morte.

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É fácil entender porque o cineasta Cristiano Burlan, 39 anos, cuja vida foi tão impregnada pela morte, interessou-se em filmar uma nova versão de Hamlet, de William Shakespeare. Alguém que, como ele, perdeu mãe, irmão e vários amigos de forma violenta, sintoniza-se sem esforço com a dolorosa fúria do angustiado príncipe órfão da Dinamarca.
 
Como seria de se esperar, a versão de Burlan, que foi o grande vencedor do Festival É Tudo Verdade 2013 justamente com Mataram Meu Irmão, recusa a pompa e a nobreza, situando-se na São Paulo de hoje. Entretanto, o andaime dramático de Shakespeare, assim como diversos de seus diálogos, estão no filme – que é despojado do ponto de vista de encenação, figurinos e cenários apenas para aproximar mais a tragédia dos espectadores atuais.
 
O despojamento, porém, não limita as intenções do realizador, que parte de uma encenação teatral, com um elenco encabeçado por seu habitual parceiro artístico, Henrique Zanoni (que representa Hamlet) e a interrompe para que os atores discutam, metalinguisticamente, seus personagens. Zanoni, por exemplo, descreve seu personagem à perfeição: “Não é bossa nova, é rock’n’roll”. Trilha que emoldura, também, os passeios do príncipe nas ruas paulistanas, a toda velocidade na Marginal do Tietê ou nos trens e metrô.
 
Particularmente interessantes são as participações do Fantasma (Jean-Claude Bernardet) que, na pele do pai de Hamlet assassinado, representa uma espécie de alterego e consciência culpada do filho, o incitador de sua reação e, em última análise, o catalisador de sua destruição. Particularmente sagazes são as observações de Bernardet sobre o caráter de Hamlet, confrontando suas hesitações.
 
Outro olhar novo sobre a peça de 450 anos é a da jovem atriz Ana Carolina Marinho. Intérprete de Ofélia, ela vê mais força e possibilidades em sua personagem do que aquelas que lhe legou Shakespeare.
Momentos encenados da peça se intercalam com estas conversas com os atores e também com uma apresentação de rua, no centro velho de São Paulo, em que o elenco colhe opiniões dos espectadores.
Esta ida e volta da história, apesar de sua fragmentação, lhe dá vida e movimento – já que o enredo de Hamlet é sobejamente conhecido, seria redundante meramente replicá-lo.
 
Um momento intrigante e que sinaliza as ambições do diretor com o filme é aquele que mostra um suposto assassinato na rua, em imagens de uma câmera de segurança, e o temor dos passantes de se aproximarem da suposta vítima, que pode nem mesmo estar morta. Dá o que pensar a maneira cotidiana como se reage – ou não - diante da morte. 
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