Lázaro Ramos e Alinne Moraes estrelam o suspense O Vendedor de Passados, novo filme de Lula Buarque de Hollanda, diretor do documentário O Mistério do Samba (2008), sobre a Portela, e da comédia Casseta & Planeta: A Taça do Mundo É Nossa (2001). A produção é inspirada no romance homônimo do angolano José Eduardo Agualusa, lançado em 2003, sobre um profissional que recria histórias de vida para figuras públicas da elite no país.
Da obra, Hollanda e a roteirista Isabel Muniz (co-escritora de novelas brasileiras como Cheias de Charme e séries como Sob Nova Direção) extraíram apenas o ofício do personagem. Saem os políticos, militares e novos ricos angolanos (com espinhosas biografias ou vergonhosos berços), para a entrada de figuras mais simplórias da realidade carioca.
Na adaptação ao Brasil, Félix Ventura torna-se Vicente (Lázaro Ramos), que se dedica a fabricar passados com a ajuda da tecnologia e sua criatividade. É o caso, por exemplo, de Ernani (Anderson Muller), que tem vergonha de sua antiga obesidade e quer uma bagagem mais feliz para conquistar mulheres.
A tensão realmente começa quando uma misteriosa mulher, que se identifica apenas como Clara (Alinne Moraes), encomenda a Vicente uma nova biografia. Mas, impõe: a nova Clara deve ter cometido um crime. O inesperado pedido gera uma obsessão no rapaz, que se apaixona por sua cliente, o que o levará a encarar a sua própria vida.
Com início que bebe na narrativa noir, em torno da mulher de virtudes questionáveis, o suspense dirigido por Hollanda se encaminha de forma direta para o drama pessoal e familiar de Vicente. A adoção, a mãe psicanalista com quem não fala, as mentiras que criou ao seu redor; todos os fatos que o personagem precisará enfrentar, quando a narrativa de Clara vai perdendo força.
Se o livro pode ser considerado uma sátira social angolana, o filme contribui para uma discussão sobre identidade. Mas cria-se aqui uma dubiedade: ao mesmo tempo em que a tecnologia pode recriar passados, um mundo hiper conectado pode apontar as inverdades da nova biografia. Esse é o buraco do argumento do filme, que dificilmente passará despercebido pela audiência.
