Mundo Cão é um filme que construiu a publicidade em cima de seu suspense. Quando foi exibido no Festival do Rio, no ano passado, foram distribuídos panfletos dizendo ao público para não revelar o final a outras pessoas, e não estragar o prazer de quem ainda não viu – algo que lembra o letreiro final do francês As Diabólicas (55), de Henri-Georges Clouzot, diga-se de passagem. Os mesmos papeis foram distribuídos nas sessões para a imprensa, pedindo evitar spoilers em seus textos. É uma jogada sagaz que desperta o interesse, mas, no final, devolve pouco – ao menos nesse sentido.
Não há nenhuma grande surpresa em Mundo Cão – algo como o final de O Sexto Sentido ou Psicose. O que existe no filme dirigido por Marcos Jorge (Estômago) são fatos encadeados, o que é comum a qualquer narrativa, alguns inesperados, outros nem tanto. Não há no filme uma verdade escondida o tempo todo que só se revela no final, “enganando” o público. Fora essa “propaganda enganosa”, o longa encontra em seus protagonistas, Babu Santana e Lázaro Ramos, duas grandes interpretações em meio a suspense e humor deslocado.
Santana (Babu) trabalha no Departamento de Combate às Zoonoses, num tempo em que não havia proibição do sacrifício de animais sadios. Sua vida pacata com a mulher, Dilza (Adriana Esteves), e os filhos, Isaura (Thainá Duarte) e João (Vini Carvalho), é transformada quando captura um rottweiller, aparentemente abandonado, mas que pertence a Nenê (Lázaro) – um chefão do crime violento e sem a menor piedade.
A trama, assinada por Jorge e Lusa Silvestre, acompanha embates desses dois homens a partir desse encontro. A estrutura da narrativa funciona como uma espécie de gangorra, dando protagonismo a cada um dos dois e alternando quem está no topo numa história de vingança.
Mundo Cão constrói sua tensão de forma eficiente, até que alguma piada tola apareça no meio do caminho para dissipar o peso que o filme trazia para si. E isso acontece o tempo todo. É uma mistura que funcionou em Estômago, filme que deslanchou a carreira de Marcos Jorge, mas que esvazia seu potencial aqui. O filme poderia ser algo como O Lobo Atrás da Porta, não fossem as intervenções cômicas deslocadas.
Os cachorros, como no recente White God, no fundo, não representam cachorros – simbolicamente, encerram em si relações sociais de poder. Desigualdades sociais se materializam e impulsionam a trama, refletidas nas sucessivas vinganças – que parecem pautadas mais pela revanche pessoal do que qualquer outra coisa.
