27/02/2024
Experimental Alegoria

Brasil S/A

Esquetes simbolizam situações que discutem o Brasil, fragmentado entre sonhos de grandeza, desenvolvimento econômico, consumismo e religião.

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Brasil S/A, de Marcelo Pedroso (do documentário Pacific), sintetiza um tipo de cinema de invenção, de procura de ousadia formal e transgressão de gêneros cinematográficos. Prova disso é até a dificuldade de oferecer uma sinopse sintética do filme, que dividiu apaixonadamente as opiniões entre defensores e adversários no Festival de Brasília 2014, de onde saiu com cinco prêmios: melhor direção, roteiro, trilha sonora, montagem e som.
 
Idealizado pelo diretor e roteirista há cerca de oito anos atrás já no formato de uma alegoria de forte vinco social e político, Brasil S/A estrutura-se a partir de esquetes que sinalizam seus temas – o consumismo, o ceticismo diante de uma certa vocação messiânica do Brasil para lançar-se aos seus ciclos de desenvolvimento e muitos outros. A produção investe muita energia num rigor estético, dispensando diálogos e dramaturgia convencional e valendo-se de sons e música (com excelentes composições de Mateus Alves) para construir o universo em que pretende conduzir o espectador.
 
Reconhecendo, no debate do filme em Brasília, influências diversas – de Elia Suleiman ao Jacques Tati de Playtime, passando por Dziga Vertov, com um aceno temático a São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person -, o diretor afirmou que, apesar dessas afinidades, não imagina que seu cinema seja capaz de levar o público a realizar mudanças sociais, como até foi objetivo de cineastas do passado aos quais se filia ou admira. Sua intenção é “promover deslocamentos dos sentidos, combater os consensos pelos quais a gente se organiza em sociedade”. Entre eles, a tal ideia “messiânica”, segundo suas palavras, do Brasil como um país que se acredita naturalmente destinado a uma grandeza, que se apoia em alguns mitos temporários, em torno dos ciclos econômicos ao longo da História, como a mineração, a industrialização e agora o do pré-sal.
 
Arriscando-se a uma investigação muito peculiar e intelectualizada em torno da identidade brasileira – apesar das naturais limitações e simplificações intrínsecas ao próprio formato alegórico -, o filme de Marcelo Pedroso produz algumas boas ideias e material de reflexão. Caso de um foguete em formato de igreja que sobe ao céu ou um serviço de delivery de automóveis particulares, com seus motoristas a bordo, usando as chamadas “cegonhas” como solução para metrópoles de trânsito congestionado. Dada a enormidade dos temas que pretende abarcar, nem poderia esgotá-los. É uma boa tentativa, num filme bastante original dentro do panorama da atual produção nacional.
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