Treze anos mais jovem do que Yimou, Yuan mostra-se menos disposto à estilização que tanto marcou alguns trabalhos do colega veterano, como Lanternas Vermelhas e Ju Dou - Amor e Sedução. Este drama, por exemplo, afirma seu despojamento desde as cenas iniciais, introduzindo sua câmera na modesta casa de uma família em Pequim, depois de passear por ruas caóticas, em que não desvia o foco da sujeira das calçadas e dos ônibus superlotados convivendo com o glamour artificioso de outdoors de propaganda de produtos ocidentais, como lingerie.
Nesse mundo de convivência esquizofrênica entre parâmetros comunistas e alguns sinais capitalistas, um drama básico de tragédia grega começa a desenrolar-se. Duas irmãs de criação, Xiaoqin (Li Yun) e Tao Lan (Liu Lin), confrontam-se numa rivalidade permanente. O pai da primeira casou-se com a mãe da segunda e os mimos de cada um para sua respectiva filha só acentuam uma insaciável disputa de atenção.
O ciúme leva a maquiavélica Xiaoqin a roubar dinheiro do pai, escondendo-o entre as coisas da irmã postiça. O incidente deflagra uma ruidosa briga do casal e o castigo de Tao Lan. Revoltada com a injustiça, Tao Lan segue Xiaqin pela rua e atinge-a na cabeça, matando-a acidentalmente. Tem apenas 16 anos e passará os próximos 17 na prisão, submetida a um severo processo de reeducação, em que deve decorar regras como manter distância de pelo menos cinco metros dos oficiais.
Uma inesperada licença para passar o Ano Novo com a família instaura o pânico na moça que, como um bicho de zoológico, não sabe mais viver fora da jaula, ainda mais prevendo uma acolhida hostil em sua casa. Afinal, a própria mãe não a visita há mais de dois anos. Perdida na rua, sem saber o que fazer, Tao Lan encontra a capitã Jien (Li Bingbing), uma das oficiais da prisão.
Encarnando uma funcionária pública obstinada e honesta até demais, a jovem Jien obstina-se no cumprimento do dever de levar a presidiária em casa, convencendo-a de que não pode simplesmente abrir mão de um benefício que o Estado está lhe concedendo. As duas dirigem-se, assim, à casa dos pais de Tao Lan, onde uma iminente revisão do passado parece-lhe pior do que uma execução.
É possível enxergar muitas metáforas nesta história, encaixando em cada personagem um símbolo de uma das forças básicas em conflito na sociedade chinesa, como em qualquer outra - a tradição e a modernidade, o Estado e a família. Sem querer ir muito longe, esboça-se um conto humanista de reconciliação e até uma velada crítica ao capitalismo. Afinal, como desabafa o próprio pai da família (Liang Song), toda a tragédia foi acontecer por apenas uma nota de cinco yuans.
