O mestre polonês Andrzej Wajda, morto em 2016 aos 90 anos, finalizou sua carreira com o drama político Afterimage, concluído pouco antes de sua morte. É uma obra que encerra um ciclo vigoroso, marcado pelo humanismo e pela defesa da liberdade em ambientes totalitários, na Polônia sob o regime comunista, tutelada pelo stalinismo soviético.
O filme acompanha a velhice do pintor Wladyslaw Strzeminski (Boguslaw Linda), que perdeu um braço e uma perna na I Guerra Mundial, e as dificuldades que enfrenta por não se enquadrar à estética do realismo socialista, voltada a enaltecer a construção do regime socialista. Perseguido pelos burocratas do PC por teorizar e defender a liberdade artística para seus alunos na universidade de Lodz (famosa por sua escola de cinema, onde estudaram, além de Wajda, Andrzej Kieslowski e Roman Polanski), Strzeminski não hesita em dar murros em ponta de faca para permanecer fiel ao seu ideário artístico. O apoio dos alunos, que o cultuam como um verdadeiro mestre, preenche seu dia.
Nika (Bronislawa Zamachowska), a filha adolescente, que mora com a mãe, visita-o diariamente e cuida de sua precária alimentação. Uma aluna cuida de registrar suas teorias pictóricas e preservar seu legado.
Mas a intensificação da perseguição política começa a prejudicar sua carreira e mesmo sua sobrevivência. Já que não conseguem cooptá-lo, os burocratas do regime apertam o garrote para sufocá-lo. Esse duelo, que representa a defesa da liberdade de expressão e da individualidade, transita por todo o filme como libelo contra as forças reacionárias e a máquina partidária.
