O melodrama nostálgico Veneza, de Miguel Falabella, conta com um luminoso elenco de atrizes (Carmen Maura, Dira Paes e Carol Castro, esta premiada como melhor coadjuvante no Festival de Gramado 2019) mas peca por uma visão um tanto datada e romantizada da prostituição e um ineficiente manejo da construção da fantasia no cinema.
Baseado numa peça de Jorge Accame, o enredo se passa num cafundó do interior do Brasil, onde sobrevive o precário bordel comandado por Gringa (Carmen Maura). Suas “meninas” são Rita (Dira Paes), já madura e perdendo de vista seus sonhos; Madalena (Carol Castro), que não desiste de pensar em sair dessa vida; e Jerusa (Danielle Winits), um temperamento um tanto impulsivo.
Mas é Gringa, finalmente, quem começa a perder contato com a realidade, confundindo-a com a fantasia. Isto a remete de volta ao passado, a um certo dia em que desistiu de um amor que a levaria a outra vida e a Veneza. Agora, na velhice, ela reencontra o sonho e não há quem a faça perdê-lo de vista.Ela quer porque quer ir a Veneza, em busca do amor perdido, Giacomo, sem atentar para os muitos anos que se passaram.
A instabilidade da matriarca tira do eixo o pequeno bordel, do qual é um dos clientes preferenciais Tonho (Eduardo Moscovis) - que há pouco trouxe para lá uma jukebox, que introduziu um pouco de música ao ambiente um tanto desolado.
A passagem de um circo, finalmente, dá ideias a Tonho sobre a maneira como se pode realizar o sonho de Gringa. Mas isto requer dinheiro e as moças do bordel só dispõem de um meio de ganhá-lo - o próprio corpo.
O desfecho remete a uma tentativa de realismo fantástico que não encontra sustentação, apesar dos esforços da dramaturgia e da direção de arte de Tulé Peak (o segundo prêmio do filme em Gramado). Há uma série de engrenagens que não funcionam e o filme soa datado, anacrônico em quase tudo, a começar por sua visão das prostitutas. Por isso, mesmo um elenco tão capacitado não encontra maneira de dar o seu melhor.
