A bile e o humor cínico do romance de Nora Ephron nem sempre encontraram a devida ressonância na tela do cinema em A difícil arte de amar, uma adaptação assinada por Mike Nichols com roteiro da própria escritora. Baseado no casamento e separação da autora, o filme tem boas interpretações de Meryl Streep e Jack Nicholson, mas a narrativa nem sempre flui como deveria e os personagens acabam mais irritantes do que deveriam (ou mereciam) ser. Ainda assim, é um filme que, passados mais de 30 anos, tem algo a dizer.
Ephron foi casada com o famoso jornalista Carl Bernstein (o mesmo do escândalo do Watergate, retratado em Todos os homens do presidente), e o casamento acabou quando ela descobriu seus casos amorosos. No filme, são chamados de Rachel e Mark e possuem mais ou menos as mesmas características dos originais. Ela é uma colunista e apresentadora de gastronomia, e ele, um repórter que cobre política.
A difícil arte de amar é um título um tanto equivocado porque em jogo entre Rachel e Mark não está bem a “arte de amar” mas uma negociação entre casamento e confiança recíproca. Muito já se criticou do filme e do livro, e talvez isso seja porque a história é contada do ponto de vista da mulher, - e, sim, ela está com muito ódio do homem, isso fica bem claro.
O crítico Roger Ebert, por exemplo, começa seu texto, da época do lançamento do filme, dizendo que a autora “deveria contar a história do casamento de outra pessoa. Assim, ela poderia ter trazido distanciamento e perspectiva [mas ela baseou em seu próprio casamento], e ela tinha ódio demais para transformar em entretenimento”. Eram os anos de 1980, e tanto a crítica cinematográfica quando a política de gêneros respondiam a outra dinâmica. Mas nada disso invalida a perspectiva de Ephron, que, no fundo, não estava muito interessada mesmo em escrever uma obra de entretenimento.
