A Chorona é o terceiro longa do guatemalteco Jayro Bustamante, e a prova de que sua estreia impressionante com Ixcanul (exibido na Mostra de São Paulo em 2015) não foi acidente, mas o começo da carreira de um cineasta consistente, seguro e interessando nas questões político-sociais que afligem o seu país. O ponto de partida é a famosa lenda latina da Chorona – recentemente explorada num filme hollywoodiano risível –, propícia a servir de base para filmes de terror.
Bustamante não se furta ao gênero e combina terror com cinema político, investigando feridas da guerra civil na Guatemala, que durou de 1960 a 1996. A Chorona é uma mãe tomada pela dor do abandono, que afoga seus próprios filhos e é condenada a vagar pelo mundo por toda a eternidade. O filme, roteirizado pelo diretor e Lisandro Sánchez, começa pelo ponto de vista da elite, a família de um general prestes a ser condenado por um genocídio. Inspirado no ditador Efraín Ríos Montt, o general fictício Enrique Monteverde (Julio Diaz) foi o responsável pela morte de milhares de Maias.
A família é tomada pelo terror diante da condenação iminente. A matriarca Carmen (Margarita Kenefic, numa grande interpretação) não mede esforços para proteger o marido, que parece dominado pela demência, enquanto a filha adulta, Natalia (Sabrina De La Hoz), vive num conflito moral interno pelas ações do pai. A casa é cercada por manifestantes e o cenário claustrofóbico parece prestes a explodir. Chega nesse ambiente a empregada Alma (María Mercedes Coroy, protagonista de Ixcanul). A princípio, parece uma moça prestativa e dedicada ao trabalho, mas com ela surgem elementos inesperados e sobrenaturais, como uma praga que enche o quintal de sapos, e o choro insuportável de uma mulher.
A Chorona é um filme desconcertante em seu retrato político cru, e no balanço entre drama social e fantasia. Coroy é, como no outro filme, uma presença forte, magnética, que é o centro de perturbação – embora os outros personagens possam ser perturbados internamente sem a ajuda dela. A fotografia do peruano Nicolás Wong ressalta a atmosfera de pesadelo febril num mundo oprimido por feridas históricas que jamais serão fechadas por completo, nem com o choro desesperado de uma mãe.
