Décimo filho de uma família pobre de 13 irmãos em Dublin, Irlanda, Christy Brown chegou a ser considerado débil mental porque, devido à paralisia cerebral, apenas se arrastava e não conseguia falar direito. No entanto, ele se afirmou, tornando-se pintor e escritor, ainda que não conseguisse controlar mais do que o pé esquerdo.
- Por Neusa Barbosa
- 14/06/2021
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A intensidade do ator Daniel Day-Lewis na interpretação de Christy Brown, homem que lutou para superar as limitações físicas de uma paralisia cerebral, valeu-lhe o primeiro de seus três Oscars, em 1990. Day-Lewis, certamente, é um dos grandes trunfos de Meu Pé Esquerdo, drama que reconta a vida de Brown com uma aproximação honesta que, em momento algum, procura evocar piedade pela deficiência física do personagem. Pessoa inteligente, determinada e sensível, Brown conseguiu tornar-se pintor e escritor, mesmo não tendo controle de mais do que de seu pé esquerdo.
Antes disso, no entanto, ele sofreu as agruras de ter nascido com um severo comprometimento físico, que fez com que, por anos, ele fosse considerado débil mental. Afinal, o pequeno Christy (Hugh O’Conor) apenas se arrastava e não conseguia emitir uma fala compreensível, a não ser por sua mãe (Brenda Fricker, também premiada com o Oscar).
Mas este menino de olhar intenso tudo observa e um dia, apoderando-se de um pedaço de giz no pé, consegue escrever uma palavra e provar que dentro daquele corpo prejudicado havia uma inteligência vibrante, lutando para expressar-se.
Ainda que não tivesse deficiência alguma, a vida de Christy não teria sido fácil. Era o décimo de 22 filhos - apenas 13 sobreviventes - de um casal de trabalhadores de Dublin. O pai, Patrick (Ray McAnally), pedreiro, botava o pão na mesa. Católica, a mãe não podia evitar filhos, passando considerável parte de sua vida grávida.
Mesmo nesse contexto de pobreza, não faltou acolhimento a Christy. Tratado como mais um da turma, tanto pelos irmãos, como pelos vizinhos, ele participava de todas as atividades, até das peladas de rua. Os irmãos o incluíram em seus passeios quando ele ganhou uma espécie de pequena carroça, empurrada para todo lado.
O temperamento apaixonado, rebelde, pedia que pudesse levar uma vida com o que todo mundo tinha, inclusive amor - e aí estava o mais difícil. As mulheres se recusavam a habitar o seu mundo, a não ser como amigas ou protetoras, caso da dra. Eileen Cole (Fiona Shaw), que foi fundamental para a evolução de seu quadro, mas isso não bastava para Christy.
A história respira autenticidade especialmente ao adaptar um relato autobiográfico do próprio personagem, aproximando-se de um homem que nunca pretendeu apresentar-se como santo. Bem ao contrário. Christy mostra-se capaz de malandragens, chantagens emocionais, explosões de raiva e torna-se um bebedor de uísque de respeito. Logo de cara, numa cena que o apresenta adulto, prestes a participar de uma cerimônia beneficente, o filme já desmonta qualquer aura santificadora. Isto o humaniza, trazendo-o para perto de todo mundo.
Nos saborosos extras do DVD da Classic Line, um destaque é o making of, contendo entrevistas com o roteirista Shane Connaughton e o ator Hugh O’Conor, este comentando o preparo intensivo de Day-Lewis, que chegou a quebrar duas costelas no processo de reproduzir as condições motoras de Christy. Outro extra mostra imagens do Christy Brown na vida real, que morreu precocemente, aos 49 anos.
