05/07/2026
Drama

Anna

Anna é uma atriz bela, jovem e inexperiente. Um diretor de teatro veterano e com histórico de comportamento abusivo pretende montar "Hamlet" com um novo conceito e vê na moça a presa perfeita para seu sadismo.

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Anna, dirigido por Heitor Dhalia, é um filme que se inscreve na tradição de homem mais velho predador sexual que pretende devorar uma jovem. É um mote quase tão velho quanto a literatura e que, em pleno século XXI, precisaria de uma abordagem diferente – o que não é bem o caso aqui, embora se tente. Escrito pelo diretor e Nara Mendes, o longa tem como cenário o mundo do teatro, e ao centro um diretor veterano que pretende fazer uma montagem transgressora de Hamlet.
 
Arthur (Boy Olmi) é um renomado diretor de teatro veterano, conhecido por seu comportamento abusivo – mas aceito porque, aparentemente, ele é genial, ou apenas veterano mesmo. Anos atrás, tentou montar Hamlet, mas não deu certo, e essa história se tornou meio mítica para os demais e um fantasma, para ele. Anna (Bela Leindecker) é uma atriz jovem e pouco experiente que aspira ao papel de Ofélia na nova produção.
 
Boa parte do filme consiste em testes e exercícios teatrais para que os personagens, que interpretam atores e atrizes, encontrem seus papeis dentro da peça. Não é muito interessante assistir ao processo criativo deles, nem às conversas de bar depois dos ensaios. Anna é a jovem ingênua que cai nas garras de Arthur – um homem para quem abusos e humilhações são indispensáveis em nome de um bem maior: a arte. Ninguém parece entendê-lo – o que o transforma num gênio incompreendido e, sutilmente, numa vítima dentro do filme.
 
O que o filme apresenta é um caricatura do teatro e do seu processo, por isso, talvez, seja tão enfadonho, com sua romantização do trabalho de atores e atrizes. Para Arthur, Ofélia é uma mistura de inocência, beleza e trauma. Como Anna é bela e inocente, resta a ele causar-lhe alguns traumas para que compreenda a personagem shakespeariana. Obviamente, tudo isso culminará num estupro, mesmo sem violência mas, ainda assim, um estupro. Ah, as coisas que Arthur faz em nome de sua arte, parece dizer o filme, apenas balançando a cabeça.
 
Há outros tipos de abusos – físicos e emocionais – e fetiches um tanto doentios que em nada contribuem para esse enigma que é o filme Anna. Dhalia, que ficou conhecido no cinema por O Cheiro do Ralo (2006), fez uma carreira irregular – com una incursão infeliz ao exterior com o filme 12 Horas –, e aqui parece mais desencontrado do que nunca. O longa é uma sucessão de equívocos morais e cinematográficos, que tenta, esteticamente (com sua fotografia soturna e personagens rasos), trazer uma tensão – ou talvez, pior, uma justificativa – para algo que a narrativa não consegue resolver.
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