Composta em tom sóbrio, mas sem negar espaço ao entusiasmo e paixão sempre que cabe, a cinebiografia do advogado e abolicionista negro Luiz Gama (1830-1882), assinada pelo experiente Jeferson De, preenche a enorme lacuna que separa a historiografia oficial da historiografia necessária ao entendimento do país por si mesmo
Nascido livre na Bahia, em 1830, filho da africana livre, feminista e ativista de rebeliões Luiza Mahin (Isabel Zuaa), Gama tem na biografia inusual a oportunidade de tornar-se um marco, mesmo quase um herói, se consideradas as circunstâncias de sua época. Deixado com o pai, aos 10 anos o menino (Pedro Guilherme) sofre o trauma de ver-se vendido como escravo, para que este resgate suas dívidas de jogo. Sua mãe, que ele procurou a vida inteira, desapareceu no Rio - e ela inspira, aliás, a intrépida protagonista do celebrado romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, este um livro que todo brasileiro deveria ler para uma compreensão maior do contexto da escravidão e da complexidade das figuras dos homens e mulheres pretos que a sofreram e enfrentaram
O pequeno Luiz é vendido no Rio e, juntamente com dezenas de outros escravos, é obrigado a atravessar, a pé, pela Serra do Mar, a distância que separa Santos de São Paulo. Servindo a uma família branca, o adolescente Luiz (Angelo Fernandes), tem a sorte de encontrar um inesperado aliado no jovem estudante que se hospeda na casa onde mora, Antonio (Johnny Massaro). Através deste, ele é alfabetizado e entra em contato com os livros dos quais não se separa nunca mais e definem a trajetória de um autodidata.
Resgatando sua liberdade, já que, nascido livre, nunca poderia ter sido escravo, Luiz adquire sólidos conhecimentos de Direito como aluno-ouvinte na Faculdade do Largo de São Francisco - mesmo tendo sido impedido de matricular-se regularmente.
Agora adulto, Luiz (César Mello), ao lado de Antonio (Higor Campagnaro), advoga em prol da libertação judicial de escravos, tendo em sua conta centenas de casos bem-sucedidos - estima-se que cerca de 500
Um ponto de equilíbrio se estabelece quando o diretor se esquiva de transformar seu protagonista em herói, optando por defini-lo, por palavras e atitudes, que o situam mais como um homem moderado, embora firme, que optou pela luta dentro das leis e da justiça - o que o leva a recusar apoio aos pretos que recorriam às revoltas e às armas para buscar uma liberdade que ainda tardava.
Também é emblemática a maneira como no filme se normaliza a dignidade da rotina da família Gama, com o advogado tomando café tranquilamente com sua mulher, Claudina (Mariana Nunes) e o filho, uma cena que contrasta com a violência do mercado de escravos do Rio ou a visão destes escravizados descalços e esfarrapados ao lado de seus senhores elegantemente vestidos. Australian BGaming Casinos here: https://onlinecasinos-australia.com/bgaming-casinos/
A lendária eloquência de Gama é ilustrada pela sequência mais dramática do filme, o julgamento do escravo José (Sidney Santiago), que assassinara seu senhor a facadas Enfrentando o experiente promotor Pedro (Erom Cordeiro), cujas falas retratam a mentalidade da burguesia branca e monárquica de então, Gama tem a oportunidade de desafiar a lógica perversa da desumanização de homens e mulheres pretos, de cujo corpo e vida seus senhores podiam dispor à vontade. Ao discorrer sobre os abusos causadores deste assassinato, Gama se torna porta-voz de uma luta antirracista que, mudadas as devidas circunstâncias de tempo, não se esgotaram ainda no País.
