Conhecido morador de Gravatá (PE), Chico Caixa perde seu emprego como motorista de carro-pipa numa região abalada pela falta de água encanada. É convidado pelo amigo de infância, o advogado Joel, a assumir o comando de sua campanha para eleger-se vereador. Chico acredita em Joel e torna-se seu maior cabo eleitoral. Mas decepções estão à frente no jogo sujo da política.
- Por Neusa Barbosa
- 08/11/2021
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A água está no centro de tudo em Curral, drama de Marcelo Brennand que radiografa uma campanha política na cidade de Gravatá (PE). Três planos essenciais do filme, muito bem fotografado por Beto Martins. focalizam essa mesma água: o primeiro, o último e um intermediário, que leva o protagonista, Chico Caixa (Thomás Aquino), a ter um mau pressentimento com seu filho. Esta água que tanto falta na cidade, desprovida de encanamento, é levada por caminhões-pipa, alimentando os meandros da campanha política, que visa a reeleição de um prefeito tradicional e corrupto, Vitorino (José Dumont).
Por uma destas disputas em torno da água escassa, de distribuição garantida a alguns e negada a alguns outros, Chico Caixa, motorista do caminhão-pipa, acaba perdendo seu emprego. Arruma outro na campanha de um novo vereador, Joel (Rodrigo García), advogado, ex-defensor público e seu amigo de infância.
A escassez de água e de empregos alimenta as torneiras financeiras da campanha, que distribui seus favores a eleitores céticos, mas carentes, em troca do cadastro como eleitores. Tanto esse dinheiro quanto o transporte no dia da eleição são ilegais, mas nesse coração do Brasil, como em tantos lugares, as ilegalidades pululam à vista de uma polícia e uma justiça que, quase invariavelmente, prefere olhar para o outro lado quando se trata de enfrentamento com o poder.
O centro moral e ético está em Chico, um trabalhador que empenha seu nome junto aos moradores de seu bairro, o carente Caixa, e da zona rural, para eleger seu amigo vereador. Chico torna-se fiador de suas promessas e é o primeiro atingido quando percebe que Joel está fazendo alianças que o comprometem no jogo daqueles que sempre mandaram e adiam indefinidamente as promessas de cada eleição, mantendo em funcionamento a máquina que mantém esses líderes corruptos e mentirosos, exploradores das fragilidades do povo.
Ator que está traçando uma trajetória firme e luminosa no cinema brasileiro, a partir de sua participação no premiado Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (aqui na direção de arte), e também em Deserto Particular, de Aly Muritiba, Thomás Aquino venceu prêmios como melhor ator nos festivais Huelva (Espanha) e Inffinito Brazilian Film Festival por sua empenhada interpretação como mais este homem do povo espremido nas contradições de seu tempo e circunstância.
Talvez pudesse ser outra, menos vaga, a conclusão deste drama certamente oportuno - mas não lhe faltam verdades e pungências.
