05/06/2026
Terror Drama

O beco do pesadelo

Deixando para trás um passado sombrio, Stan Carlisle desembarca num circo de variedades. Logo se torna um faz-tudo e, observador atento, domina os truques de um número de adivinhação. Partindo para a cidade, começa a ganhar dinheiro de ricos que o procuram. Mas também se torna alvo de um jogo arriscado com a psiquiatra Lilith Ritter.

post-ex_7
Um elenco dos sonhos, um diretor consagrado, uma história instigante que já foi retratada antes num filme clássico (O Beco das Almas Perdidas, 1947) - quem não quer ver um filme assim? Cheio de predicados, aos quais se somam o conhecido apuro visual do diretor mexicano Guillermo del Toro, aqui escudado pela desenhista de produção Tamara Deverell e o diretor de fotografia Dan Laustsen (sua quarta parceria com Del Toro), o filme, no entanto, parece sucumbir ao próprio perfeccionismo e perder de vista um pouco de alma.
 
Protagonista e produtor, Bradley Cooper abraça o papel de Stan Carlisle - que, no filme de 1947, pertenceu a Tyrone Power -, um vigarista de fala macia que se incorpora ao circo dirigido por Clem (Willem Dafoe). Chegando do nada, não sem deixar para trás um cadáver numa casa abandonada, que ele incendiou, Stan adapta-se ao ambiente como camaleão, atento às necessidades e também às oportunidades. Torna-se, assim, uma espécie de faz-tudo, de olho no próximo barco que pode tomar. Ele se torna próximo do casal Pete (David Strathairn) e Zeena (Toni Collette), que fazem um númerp místico, em que ela finge adivinhar a história das pessoas. Há muito de truque mas também de observação humana, especialmente por parte de Pete que, apesar de alcoólatra, logo decifra a chave da personalidade insegura de Stan.
 
A partir de seu aprendizado com o casal e de sua ligação romântica com Molly (Rooney Mara), moça que estrela uma performance com efeitos elétricos, Stan parte para uma nova aventura, desta vez na cidade, onde seus shows psíquicos logo lhe garantem grande sucesso. Ao mesmo tempo que o novo ambiente lhe oferece uma oportunidade de voos mais altos, ali também se encontram perigos maiores - o mais expressivo deles, a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett).
 
Ocupando com a garra habitual o posto de mulher fatal num filme que embaralha gêneros - noir, drama psicológico, terror eventualmente gore -, Blanchett é um dos pontos altos de uma narrativa que trafega com desenvoltura no universo sombrio materializado em seu esplêndido visual mas sem adensar as criaturas que o habitam, quase sem exceção. Isto não é necessariamente um problema grave num filme de gênero, mas aqui uma certa falta de substância compromete, por exemplo, ninguém menos do que o protagonista. As limitações de Bradley Cooper como ator, apesar da bela figura, não entregam devidamente a ambiguidade de um personagem como este, riquíssimo em nuances. 
 
Não que o filme seja desinteressante, pelo contrário. Del Toro é um dos melhores diretores possíveis para uma história desta natureza, tendo a seu crédito esplêndidas realizações, como A Forma da Água, O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo, para ficar em poucos títulos. Ele tem todas as credenciais, portanto, para conduzir um relato sombrio como este. Mas talvez tenha se empolgado demais com a forma (que é impecável) e perdido um pouco de vista a humanidade de alguns personagens. Isto, de certo modo, aliena a empatia que se pode sentir pelo filme e pela história. A produção teve bilheteria decepcionante em seu lançamento, o que talvez tenha a ver com isso ou, mais ainda, com o momento vivido pelo mundo. Talvez não haja tantas pessoas assim dispostas a visitarem um universo assim tão pesado e avassalador.
post