05/07/2026
Drama

Fortaleza Hotel

Pilar é camareira num pequeno hotel em Fortaleza. Lá ela conhece a sul-coreana Shin, uma mulher que veio para o Brasil para buscar o corpo de seu marido que morreu na capital do Ceará. Quando os planos das duas mulheres dão errado, elas começam uma amizade peculiar, apesar das barreiras culturais.

post-ex_7
Da mesma forma que conjugou no masculino as emoções dos personagens de seu primeiro longa, Greta (2019), o diretor Armando Praça desdobra-as sob um ponto de vista feminino e entre duas geografias em seu novo trabalho, Fortaleza Hotel. Filmado em 2019 e montado durante a pandemia, o filme teve sua première mundial em dezembro de 2021, no Cine Ceará, onde colheu os prêmios de melhor atuação feminina (Clébia Sousa, atriz pernambucana que faz aqui sua primeira e impactante protagonista) e melhor atuação masculina (Vanderlei Bernardino). 
 
Pilar (Clébia Sousa,), camareira de hotel em Fortaleza, e Shin (Lee Young-Lan), viúva de um empresário sul-coreano, são as duas mulheres que polarizam as situações do filme, com roteiro original de Isadora Rodrigues e Pedro Cândido. 

Por muitas diferenças que haja entre suas vidas, Pilar e Shin estão de certa forma no mesmo barco. Sem contar com homens a seu lado, elas comandam existências neste momento pressionadas por uma crítica necessidade de dinheiro. Pilar, que pensava emigrar para a Irlanda, tem a filha (Larissa Góes) sequestrada pelo crime organizado e precisa levantar uma alta soma para resgatá-la. Shin, por suas vez, tenta reaver dinheiro do marido morto para poder sepultá-lo em seu país natal.

A fotografia precisa de Heloísa Passos ilustra bem essa semi-obscuridade que modela as intenções de cada uma, que encontram uma na outra uma espécie de apoio que não dispensa um componente de estranhamento e também de traição. Nenhuma situação retrata melhor a ambígua relação entre as duas do que a sequência, aliás belíssima, em que as elas dançam, primeiro ao som de um forró, depois ao de um tango sul-coreano, expressando com imagens o que páginas de diálogos não conseguiriam traduzir - ainda mais porque as duas não falam a mesma língua, entendendo-se num inglês precário.

Na montagem, Karen Harley, Gustavo Campos e Rita Pestana costuram com calma esse caleidoscópio de vidas no limite em que as duas mulheres encontram alguma forma de solidariedade e empatia - que é quase amor nestes tempos de tanta solidão. 

Construindo-se solidamente através desses vários elementos não-ditos explicitamente, mas mostrados, Fortaleza Hotel compõe uma história densa em descobertas cuja complexidade vai se expondo aos poucos, só dispensando mesmo o recurso à idealização. Pilar e Shin são duas mulheres de carne e osso, vivendo dilemas deste tempo, encontrando-se na humanidade que as caracteriza, apesar das evidentes diferenças. 

Além disso, não foi pouco desafio o diretor comandar um set em que foi imprescindível o uso do inglês, sem perder com isso a emoção de cada cena - o que evidencia o preparo investido neste e nos demais aspectos da produção.


post