Emilie precisa de alguém para dividir o aluguel do apartamento. Aparece Camille, um professor de literatura, e os dois entram num caso tórrido. Mas o envolvimento dele é diferente do dela. Logo mais entram em cena outros personagens, como Nora, vindo de Bordeaux, e precisando desesperadamente de um novo começo de vida.
- Por Neusa Barbosa
- 20/04/2022
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Baseando-se em contos de Adrian Tomine, o experiente diretor francês Jacques Audiard compõe neste filme um rico panorama do que é ser jovem adulto hoje numa grande cidade. Apostando numa fotografia em preto-e-branco que tira a ênfase da vocação de Paris para tornar-se cartão-postal, ele investe nas relações cruzadas de um pequeno grupo de personagens que moram e trabalham no bairro Les Olympiades, o 13o distrito da capital francesa.
Emilie (Lucie Zhang) é uma atendente de telemarketing que põe para alugar um quarto de seu apartamento para reduzir despesas. Ela procurava outra moça, mas quem aparece é Camille (Makita Samba), professor de literatura que leciona nas redondezas. Entre os dois, rapidamente se estabelece uma relação, tão tórrida quanto efêmera - tendo como resultado a mágoa de Emilie, que apostou mais no sentimento entre os dois do que Camille.
Nora Ligier (Noémie Merlant) vem do interior - Bordeaux - para estudar direito em Paris e tentar, aos 32 anos, recomeçar uma vida truncada por uma série de pendências. Quando, numa festa da faculdade, ela usa uma peruca loura, é confundida com uma celebridade pornô da internet, Amber Sweet, o que a coloca no centro de uma ultra-exposição que a humilha a ponto de querer largar a faculdade.
Nora e Camille acabam se encontrando numa imobiliária, que ele está tocando para um amigo, enquanto escreve sua tese e fica longe das aulas, e ela procura como um emprego para sustentar-se. Aí está o estopim para outros relacionamentos e conflitos, que conduzem o filme a encontrar também a família de Camille e de Emilie - que não sumiu completamente da vida de seu ex-.
A maneira como estas vidas se mesclam, entre empregos insatisfatórios, amores desencontrados e dramas familiares, é conduzida por Audiard com seu habitual diapasão vibrante, encontrando as fissuras por onde escorrem os desejos, as ansiedades e as esperanças - tornando este trio de personagens centrais um paradigma digno dos melhores filmes de François Truffaut ou Jean-Luc Godard sobre temas parecidos, que este novo trabalho atualiza. Com roteiro assinado a muitas mãos - Audiard, Céline Sciamma, Léa Mysius e colaboração de Nicolas Livecchi -, encontra-se um tom de história coral, que sintoniza na veia da contemporaneidade. Muito carnal, todo o amor exposto é visceral, como agrada ao diretor, que já nos brindou com O Profeta, Ferrugem e Osso e tantos outros filmes cheios de sons e de fúria.
Em Paris, 13o Distrito, a paisagem é igualmente personagem, envelopando estas pessoas em suas ruas coalhadas de torres habitacionais, entre restaurantes orientais e a pulsação de uma vida urbana típica, mas não tão diferente assim de outros lugares.
Uma coisa que se faz com muita propriedade é o referimento à crueldade da exposição digital, no episódio com Nora - e que se torna mais interessante quando se pode conhecer também a verdadeira Amber Sweet (Jehnny Beth). Ao apresentar o lado desta musa erótica da internet, o filme a humaniza e traz para o “mundo real”, fora da tela do computador. Já a partir do seu título, Paris, 13o Distrito demonstra sua fé nas ruas, na luz do dia, na presença física, na fricção entre as pessoas do lado de fora de seus apartamentos - hoje, até uma reação ao isolamento provocado pela pandemia. E isso, mais do que nunca, atualiza os conceitos que tornaram porosos e espontâneos os filmes da Nouvelle Vague, atualizando o registro para nossos tempos tão mais cruéis, mas nem por isso desprovidos de sentimentos.
Concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2021, o filme venceu ali o prêmio de melhor trilha sonora, para Rone - uma outra moldura que dá identidade e densidade a tudo que se vê na tela.
